Bob Dylan: há 50 anos o entrevistão da Playboy

Vencedor do Prêmio Nobel de Literatura 2016, o cantor e compositor americano Bob Dylan,de 75 anos, já esteve nas principais páginas da Playboy, o Entrevistão. Há 50 anos, em 1966, ele deu uma entrevista para a Playboy americana. O versátil musicólogo, e articulista social incisivo, Nat Hentoff foi responsável por entrevistar o músico. Confira:

Uma conversa franca com o ídolo iconoclástico do estilo folk-rock

Bob Dylan canta “The Times They Are A-Changin” durante apresentação na Casa Branca. Foto Pete Souza / Official White House

“Menos de cinco anos atrás, Bob Dylan estava batalhando em Nova York – dormindo no apartamento de um amigo no Lower East Side, e, muito ocasionalmente, cantando suas músicas no Gerde’s Folk City, um bar pouco atraente, para caipiras da cidade, no Village. Com seu chapéu de couro, calça jeans e botas de deserto surradas – seu traje costumeiro naqueles dias –Dylan parecia com uma atualização subnutrida de Huck Finn. E como Huck, ele tinha saído do centro-oeste; ele teria dito ‘escapado’. O filho de Abraham Zimmerman, um negociador de ferramentas, foi criado em HibbingMinnesota, uma cidade triste de mineradores, perto da fronteira canadense. Embora ele fugisse de casa regularmente entre os 10 e 18 anos, o jovem Zimmerman conseguiu terminar o ensino médio, e foi perder uns seis meses na University of Minnesota, em 1960. Até então ele chamava a si mesmo de Bob Dylan– em tributo a Dylan Thomas, segundo a lenda; mas, na verdade, foi depois de uma aposta com um tio que tinha o último nome similar a Dylan.

No outono deste mesmo ano ele veio para o leste visitar seu ídolo,Woody Guthrie, no hospital de Nova Jersey, onde o cantor bardo folk Okie definhava com uma doença agressiva no sistema nervoso.Dylan ficou e tentou começar uma carreira de cantor. De acordo com os que o conheciam, até então, ele era tímido e teimoso, mas, basicamente, amigável e, orientado pelo estilo hipster, incomumente gentil. Mas eles discutiam bastante sobre sua voz. Alguns acharam seus tons do meio-oeste bastante hipnotizantes; outros concordaram com um cantor folk do Missouri, que comparou a voz de Dylan a de “um cão com a perna presa em arame farpado”. Apesar disso, todo concordavam que suas músicas eram estranhamente pessoais, e muitas vezes perturbadora, uma mistura de solidão pungente com traços evidentes de Guthrie, ecos de cantores negros de Blues, e mais que uma inspiração na música country do oeste; mas, essencialmente, Dylan desenvolveu seu próprio estilo, único e penetrante. Ainda que a voz fosse grossa, e as músicas amargamente desdenhosas com o conformismo, o preconceito racial e a mitologia da Gerra Fria, muitos de seus amigos entendiam que Dylan não poderia se tornar famoso, embora a música folk já estivesse lá, no topo.

Eles estavam errados. Em setembro de 1961, um crítico de música do The New York Times flagrou uma apresentação sua no Gerde’s, e saudou o desalinhado músico de 19 anos do Minessota como uma nova e significativa voz no horizonte do folk. Na mesma época ele assinou com a Columbia Records, e seu primeiro álbum foi lançado no início do ano seguinte. Embora tivesse ficado longe de ser um sucesso, shows e convites foram gradualmente se multiplicando; então Dylan fez história no Newport Folk Festivalem 1962. Seu próximo disco começou a andar, e na primavera de 1963 veio seu primeiro grande singleBlowin’ in the Wind. Naquela mesma primavera ele recusou um lucrativo cachê no “The Ed Sullivan Show”, porque a CBS não permitiu que ele cantasse uma paródia feroz que ele escreveu sobre a John Birch Society. Para os jovens da nação a imagem de Dylan começou a se formar: um cantor um pouco James Dean com pitadas de Holden Caulfeld; ele era isso, mas não estava vendendo esta imagem. Os shows dele começaram a atrair multidões, e suas músicas – cantadas por ele ou outros cantores folk – estavam deslanchando nas ondas do sucesso. Uma delas, “The Time They Are A-Changin’”, se tornou um hino para a juventude rebelde, que absorveu sua mensagem de que os adultos não sabem onde estão e não podem dizer as crianças o que fazer.

Em 1965 ele se tornou o maior fenômeno da cena musical. Mais e mais cantores folks, de Joan Baezaos Byrds, consideravam primordial ter um amplo suprimento de músicas do Dylan em seus repertórios; em um mês de frenético reconhecimento – o último agosto – 18 diferentes gravações das baladas de Dylan foram feitas por outros cantores que também compõe. Mais e mais aspirantes a cantores folk – e escritores de música folk – tem se parecido com Dylan. A atual onda de músicas de “protestos”, feitas por alguns cabeludos pós-beatrock’n roll, como Barry McGuire,Sonny e Cher, é creditada a Dylan. E o mais novo boom comercial folk-rock, uma fusão de letras dobradas com uma batida rock’n roll de fundo, é consequência, em grande parte, da recente decisão de Dylan – descrita como “traição” pelos folkistas puristas – de tocar com uma banda de rock’n roll ao invés de continuar sozinho, acompanhado de um violão. Apoiado por um novo grupo beat,Dylan excursionou, com um tumultuado sucesso, pela Inglaterra, assim como na América, e as ondas que carregam suas músicas em ambos o comparam apenas com os BeatlesHerman’s Hermits e os Rolling Stones no Top 40 dos sons. Nos próximos 18 meses, sua renda – incluindo shows, gravações e royalties – deverá ultrapassar U$ 1.000.000,00 (um milhão de dólares).

Contudo, externamente, Dylan parece do mesmo jeito que aparecia durante os anos de vacas magras no Greenwich Village. Ele ainda se veste de forma informal, a ponto de ser exótico; seu cabelo ainda é longo e crespo, e não é provável que ele vista uma gravata e um fraque. Mas houve mudanças. Não longos e polêmicos protestos contra as bombas, preconceito racial ou conformismo, suas canções se tornaram cada vez mais íntimas – uma amálgama surrealista, com ameaças corrosivas e sátiras kafkanianas com uma sensualidade opaca. Suas letras são mais aplaudidas que a TV com suas palavras embaralhadas e imagens esquisitas, ele gosta de escrever com mais versos poéticos livres que as linhas convencionais. Adultos ainda tem dificuldade de entender sua linguagem inusual – em sua mensagem de alienação – mas os jovens continuam a entrar em sintonia e se ligar.

Mas há outras mudanças. Dylan tornou-se evasivo. Ele não é mais visto em seus antigos redutos no Village e no Lower East Side. Com raras exceções, ele evita dar entrevistas, e, em público, geralmente é visto de longe no epicentro de um círculo de proteção de homens, rodeado por jovens despenteados e vestidos como ele, e donzelas, perfeitas jovens senhoras que também parecem estar vestidas como ele. Sua casa base, se é que pode ser chamada assim, é a casa que seu empresário tem perto de Woodstock, uma colônia de artistas da moda no estado de Nova York, e ele também gosta de correr para o apartamento de seu empresário no digníssimo Gramercy Park, na cidade de Nova York. Existem contos que dizem sobre o Dylan motociclista, o escritor, diretor de filmes em campo aberto; mas com exceção de alguns poucos amigos íntimos, o herói folk de 24 anos é inescrutavelmente distante.

Foi só depois de um longo período de evasões e hesitações que Dylan finalmente concordou em conceder esta entrevista para a Playboy – a mais longa que ele já deu. Nós o encontramos no 10º andar do novo edifício da CBS e Columbia Records no meio de Manhattan. A sala era anti-séptica: paredes brancas com rodapé preto, mobília contemporânea com linhas retas, arte de vanguarda escolhida por um comitê, tudo em ordem, mesas limpas, pessoas limpas. Neste ambiente estéril, largado em uma cadeira na nossa frente,Dylan soltou uma refrescante nota discordante – com sua indomável juba castanho-loiro penteada, sua camisa xadrez azul sem gravata, sua jaqueta preta, calça cinza vaudevillian listrada, cigarrilhas de fumo e belo sapato de camurça azul. Sentado em volta – também de cabelos compridos, sem gravata e jaqueta preta, mas vestindo jeans desbotado – um fibroso jovem que o cantor identificou apenas como Taco Pronto, exatamente quando Dylan falou – num sotaque suave, fugazmente e com um raro sorriso, bebericando chá e tragando cigarros – seu amigo não falador riu e acenou com a cabeça olhando para o lado. Tenso e emperrado na primeira, Dylan gradualmente começou a se soltar, em seguida a se abrir, enquanto tentava nos dizer – embora um pouco surrealisticamente – apenas onde ele esteve e para onde estava indo. Sob estas circunstâncias, nós escolhemos ser diretos e honestos em nossas perguntas, acreditando que ter feito de outra forma teria dado origem a um fluxo de respostas ensaiadas de Dylan.

Playboy: “As músicas populares”, você disse para um repórter no ano passado, “são a única forma de arte que descreve a atmosfera do tempo. O único lugar que isso esta acontecendo é nas rádios e nas gravações. É onde as pessoas estão resistindo. Não é em livros; não é no palco; não é nas galerias. Toda esta arte que eles tem falado por aí fica só na casca. Não faz ninguém feliz.” Em vista do fato de que mais do que nunca as pessoas estão lendo livros, indo à peças de teatro e galerias de arte, você acha que sua afirmação condiz com os fatos?

Dylan: Estatísticas medem quantidade, não qualidade. As pessoas das estatísticas são pessoas que estão muito entediadas. Arte, se é que existe tal coisa, esta nos banheiros; todo mundo sabe disso. Para ir numa galeria de coisa arte, onde você toma leite de graça, come rosquinhas e tem uma banda rock’n roll tocando: tem que ser só por status. Não estou julgando tudo, como você pensa; mas eu gasto muito tempo no banheiro. Penso que museus são vulgares. Todos são contra o sexo. De qualquer forma, eu não disse que pessoas estão “resistindo” no rádio, disse que elas podem “desistir” do rádio.

Playboy: Porque você acha que o rock’n roll se tornou um fenômeno internacional?

Dylan: Realmente não posso achar que não há alguns rock’n rolls.Atualmente, quando você pensa sobre isso, qualquer coisa que não tem uma existência real tende a se tornar uma fenômeno internacional. De qualquer forma, o que significa rock’n roll? Isso significa Beatles, significa John Lee HookerBobby VintonJerry Lewisjovem? E sobre Lawrence Welk? Ele tocou alguns sons rock’n roll. Todas estas pessoas são a mesma coisa? Ricky Nelson é igual Otis ReddingMick Jagger realmente éMa Rainey? Posso dizer pelo jeito que uma pessoa segura o cigarro se ela gosta de Ricky Nelson. Acho que é bom gostar de Rick Nelson: não poderia me importar menos se alguém gosta de Rick Nelson. Mas acho que estamos saindo da linha aqui. Não há nenhum Rick Nelson. Não há nenhum Beatles;oh, retiro isso: há um monte de besouros*. Mas não há nenhumBobby Vinton. De qualquer forma, as palavras não são “fenômeno internacional”; as palavras são “pesadelos dos pais”.

* Trocadilho de Beatles com besouro (beetle).

Playboy: Nos últimos tempos, de acordo com alguns críticos, o jazzperdeu muito do seu apelo com os jovens desta geração. Você concorda?

Dylan: Não acho que o jazz sempre teve apelo com as gerações jovens. De qualquer forma, realmente não sei quem é esta geração de jovens. Não acho que eles podem ir à clubes de jazz, de qualquer forma. Mas o jazz é difícil de acompanhar; quer dizer, você realmente tem que gostar dejazz para seguir ele: e meu lema é, nunca siga nada. Não sei qual o lema dos jovens desta geração, e acho que eles tem que seguir seus pais. O que quero dizer é, o que alguns pais diriam para seus filhos se ele chegassem em casa com um óculos, um disco doCharlie Mingus e o bolso cheio de penas? Eles iam dizer, “Quem você esta seguindo?”, e o pobre garoto teria que ficar lá, com águas em seus sapatos, uma gravata borboleta na orelha e fuligem no umbigo, e dizer: “Jazzpai, eu tenho tenho seguido ojazz.” E seu pai provavelmente diria: “Pegue uma vassoura e limpe toda esta sujeira antes de ir dormir.” Então a mãe do garoto poderia dizer à suas amigas: “Oh sim, nosso pequeno Donald, ele é como os jovens desta geração, você sabe.”

Playboy: Você costumava dizer que queria tocar o menos possível, que queria manter a maior parte do tempo para você mesmo. Entretanto, você esta fazendo mais shows e gravando mais músicas a cada ano. Por quê? É por dinheiro?

Dylan: Tudo esta mudando agora, de como era antes. Da última primavera. Estava indo na direção de parar de tocar. Eu estava esgotado, e da maneira que as coisas iam, era uma situação muito desgastante – quero dizer, quando você faz “Everbody Loves You for Your Black Eye”, quer dizer que sua cabeça esta desmoronando. De qualquer forma, tenho tocado muitas músicas que eu não queria tocar. Estou cantando palavras que realmente não quero cantar. Não quero dizer palavras como “Deus”, “mãe”, “presidente”, “suicídio” e “cutelo”. Quero dizer pequenas palavras simples como “se”, “esperança” e “você”. Mas “Like a Rolling Stone” mudou tudo: eu não me importava mais em escrever livros, poemas ou o que seja. Quer dizer, era a mesma coisa que eu já tinha conseguido. Isso é muito cansativo, ter outras pessoas dizendo para você como elas te entendem, quando você não entende você mesmo. Isso também é um prudente entretenimento mortal. Ao contrário do que muitas pessoas alarmadas pensam, eu não toco com uma banda agora por qualquer tipo de propaganda – classificados ou comerciais – este tipo de motivo. É só que minhas músicas são imagens, e a banda faz o som das imagens.

Playboy: Você sente que a adição de um grupo, e a mudança de folkpara folk-rock, melhorou você como artista?

Dylan: Não estou interessado em mim mesmo como artista. Artistas são pessoas que representam ser outras pessoas. Ao contrário de atores, eu sei o que estou dizendo. É muito simples na minha cabeça. Não importa qual a reação que a audiência tem, essa coisa toda. O que acontece no palco é o certo. Não espero nenhum prêmio ou reconhecimento de qualquer tipo de agitadores externos. É ultra-simples, e existiria se alguém estivesse vendo ou não.

No que diz respeito a como o folk e o folk-rock são concebidos, não importa que tipo de nomes feios as pessoas inventam para a música. Poderia ser chamada de música arsênica, ou talvezPheadra. Não acho que uma palavra como folk-rock tem alguma coisa a ver com isso. E folké uma palavra que não posso usar. O folk é um monte de pessoas gordas. Penso que tudo isso é música tradicional. A música tradicional é baseada em hexagramas. Isso veio através de lendas, da Bíblia, pragas, e esta envolvida em vegetais e morte. Não há ninguém que vá matar a música tradicional. Todas estas músicas sobre rosas que crescem fora da cabeça das pessoas, e amantes que realmente são gansos e cisnes que se transformam em anjos de pessoas – elas não vão morrer. Todas aquelas pessoas paranóicas que pensam que alguém vai vir e tirar seu papel higiênico – eles vão morrer. Canções como “Which Side Are You On?” ou “I Love You, Porgy” – elas não são folk music; são músicas políticas. Elas já estão mortas. Obviamente, a morte não é muito aceita universalmente. Quero dizer, você pensa que os cantores de música tradicional podem colocar esses mistérios em suas canções – apenas plantar um simples mistério – é um fato, um fato tradicional. Eu escuto as baladas antigas; mas não quero ir a festas escutar as antigas baladas. Poderia dar a você em detalhes o que elas fazem por mim, mas algumas pessoas provavelmente pensariam que minha imaginação esta saindo da linha. Surpreende-me, é engraçado, que as pessoas realmente têm a ousadia de pensar que tenho algum tipo de imaginação fantástica. Isso é muito solitário. De qualquer maneira, a música tradicional também é irreal para morrer. Ela não precisa ser protegida. Ninguém vai machuca-lá. Nesta música, a única verdade é que a morte que vale você pode sentir fora do toca discos. Mas, como qualquer coisa que tenha grande demanda, as pessoas tentam fazer elas mesmas. Tem de haver com algum tipo de pureza. Acho que a falta de sentido é sagrada. Todo mundo sabe que não sou um cantor folk.

Playboy: Alguns de seus fãs antigos concordariam com você – e não por cortesia – desde sua apresentação com um grupo rock’n roll no Newport Folk Festival, ano passado, onde muitos deles vaiaram você, em coro, por “se vender” aos sabores do popcomercial. O antigo Bob Dylan, sentem eles, era o “puro” Bob Dylan. Como você se sente sobre isso?

Dylan: Fiquei meio atordoado. Mas não posso diminuir ninguém por ter vindo e vaiado: afinal, eles pagaram para entrar. Talvez eles poderiam ter sido mais silenciosos, e menos persistentes, penso. Havia um monte de velhos lá, também; lotes de famílias inteiras tinham dirigido desdeVermont, muitas enfermeiras e seus pais, e, bem, eles vieram para escutar algo relaxante, como quadrilha, você entende, talvez uma ou duas polcas Indianas. E justo quando tudo estava indo bem, venho aqui, e todo lugar se transforma numa fábrica de cerveja. Tinha muita gente lá que ficou satisfeita em eu ser vaiado. Vi eles depois. Fiquei um pouco ressentido, porém, todos que me vaiaram disseram que fizeram isso porque eram fãs antigos.

Playboy: E sobre as acusações de que você vulgarizou seus dons naturais?

Dylan: O que eu posso dizer? Gostaria de ver um desses chamados fãs. Gostaria de ter eles de olhos vendados e entregues á mim. É como sair no deserto gritando e depois ver pirralhos jogando caixas de areia em você. Tenho só 24 anos. As pessoas que dizem isso – elas são americanas?

Playboy: Americanos ou não, há muitas pessoas que não gostaram de seu novo som. Em vista desta reação negativa generalizada, você acha que talvez tenha cometido um erro mudando seu estilo?

Dylan: Um erro é quando acontece um mal-entendido. Não poderia haver tal coisa, de qualquer forma, como essa ação. A pessoas entendem, ou fingem entender – ou então elas realmente não estão entendendo. O que você esta dizendo aqui é sobre fazer as coisas erradas por razões egoístas. Não sei uma palavra para isso, a menos que seja suicídio. De qualquer jeito, não tem nada haver com a minha música.

Playboy: Erro ou não, o que fez você decidir ir na rota do rock’n roll?

Dylan: Descuido. Perdi meu único e verdadeiro amor. Comecei a beber. A primeira coisa que lembro, é que estou num jogo de cartas. Então estou num jogo de dados. Acordei num salão de bilhar. Então esta grande dama mexicana me arrasta para fora da mesa, me leva para a Filadélfia. Ela me deixa sozinho em sua casa, e ela queima tudo. Eu acabo emPhoenix. Consigo um emprego como chinês. Começo a trabalhar em uma loja de R$ 0,99, e me mudo com uma garota de 13 anos de idade. Então a grande dama mexicana da Filadélfia vem e queima a casa toda. Desço paraDallas. Consigo um emprego de “antes” numa academia Charles Atlas “antes e depois” do método. Me mudo com um garoto de entregas que cozinha fantásticoschili e hot dogs. Então a garota de 13 anos de idade de Phoenix vem e queima a casa toda. O garoto das entregas – ele não era meigo: ele da uma facada nela, e a próxima coisa que lembro é que estou emOmaha. Está frio lá, por estes tempos estou roubando minhas próprias bicicletas e fritando meu próprio peixe. Tropeço em um pouco de sorte e consigo emprego de carburador nas corridas toda quinta-feira a noite. Mudo com um professor de ensino médio, que também faz uns trabalhos de encanador, ele não vê muita coisa, mas construiu um tipo de geladeira especial que pode transformar jornal em alface. Tudo ia muito bem até que aquele garoto das entregas aparece e tenta dar uma facada em mim. Desnecessário dizer que ele queimou a casa toda e eu peguei a estrada. O primeiro cara que me deu carona me perguntou se eu queria ser um astro. O que eu poderia dizer?

Playboy: E foi assim que você virou um cantor de rock’n roll?

Dylan: Não, foi assim que peguei tuberculose.

Playboy: Vamos voltar a questão: Por quê você parou de compor e cantar músicas de protesto?

Dylan: Parei de compor e cantar qualquer coisa que tenha tanto uma razão para ser escrito ou um motivo para ser cantado. Agora, não me interpretem mal. “Protesto” não é minha palavra. Nunca pensei em mim desta forma. A palavra “protesto”, penso eu, foi feita para pessoas que passam por cirurgias. É uma palavra de parques de diversões. Uma pessoa normal, com uma mente justa, teria que ter soluços para pronunciar isso honestamente. A palavra “mensagem” me bate como a palavra hérnia. Como a palavra “delicioso”. Também a palavra “maravilhoso”. Você sabe, o inglês pode dizer “maravilhoso” muito bem. Eles não podem dizer “atrevido” tão bem, no entanto. Bem, cada um tem suas próprias coisas. De qualquer forma, canções com mensagens, como todos sabem, são uma chatice. Apenas editores de jornais escolares e meninas solteiras de 14 anos poderiam ter algum tempo para elas.

Playboy: Você disse que pensa que músicas com mensagens são vulgares. Por quê?

Dylan: Bem, primeiro de tudo, qualquer um que tenha uma mensagem vai aprender, com a experiência, que não se pode colocar ela numa canção. Só quero dizer que a mensagem não vai sair a mesma. Depois de uma ou duas destas tentativas frustradas, vai se perceber que a mensagem resultante, que não é a mesma mensagem que se pensou no início, agora vai ficar enfincada nele; porque, depois de tudo, uma canção deixa sua boca tão logo ela deixa suas mãos. Você esta me entendendo?

Playboy: Oh, perfeitamente.

Dylan: Bem, de qualquer forma, em segundo lugar, você tem que respeitar o direito das outras pessoas terem suas próprias mensagens. Eu mesmo, o que vou fazer é alugar o Town Hall e colocar cerca de 30 meninos daWestern Union nos guichês. Quero dizer, então não vai ser a mesma mensagem. As pessoas serão capazes de vir e ouvir mais mensagens que jamais ouviram antes na vida.

Playboy: Mas suas primeiras baladas chamavam “canções de protesto apaixonado”. O que não iria fazer delas músicas de “mensagem”?

Dylan: Isso não é importante. Você não entende? Tenho escrito desde que tinha oito anos de idade. Tenho tocado violão desde os dez anos. Fui criado tocando e escrevendo qualquer coisa que eu tivesse que fazer para tocar e escrever.

Playboy: Seria injusto dizer, então, como alguns dizem, que você teve motivações comerciais, ao invés de criativas, em escrever o tipo de música que fez de você popular?

Dylan: Certo, agora, olhe. Não é tão profundo. Não é uma coisa complicada. Meus motivos, ou seja lá o que for, nunca foram comercial no sentido de dinheiro da palavra. Era mais no sentido da palavra não-morrer-por-uma-serra-circular. Nunca fiz isso por dinheiro. Isso aconteceu, e deixei isso acontecer comigo. Não há razões para eu não deixar isso acontecer comigo. Não poderia ter escrito antes o que escrevo agora, de qualquer maneira. As canções costumavam ser sobre o que eu sentia e o que via. Nada do meu próprio vômito ritmado entrou nisso. Vômito não é romântico. Eu costumava pensar que as músicas tinham, supostamente, que ser românticas. E eu não queria cantar qualquer coisa que fosse inespecífica. Coisas inespecíficas não tem senso de tempo. Todos nós, as pessoas, não temos noção do tempo; é um obstáculo dimensional. Qualquer um pode ser específico e óbvio. Esse sempre foi o caminho mais fácil. Os líderes do mundo tomam o caminho mais fácil. Não é que é muito difícil ser inespecífico e menos óbvio; é só que não há nada, absolutamente nada, para ser específico e óbvio. Minhas canções antigas, para dizer o mínimo, eram sobre nada. As mais recentes são sobre o mesmo nada – apenas vistas por dentro, como uma coisa maior, talvez chamada de lugar nenhum. Mas tudo isso é muito constipante. Eu sei sobre o que são minhas músicas.

Playboy: E são sobre?

Dylan: Oh, algumas são sobre quatro minutos; algumas são sobre cinco, e, algumas, acredite ou não, são sobre onze ou doze.

Playboy: Você pode ser um pouco mais informativo?

DylanNope.

Playboy: Certo. Vamos mudar de assunto. Como você sabe, o grupo, em idade, dos que escutam suas músicas, estão entre os 16 e 25 anos. Por quê, em sua opinião?

Dylan: Não vejo o que tem de tão estranho em uma faixa etária gostar de ficar escutando minhas músicas. Sou sofisticado o suficiente para saber que eles não vão ter entre 85 e 90 anos. Se os jovens de 85 a 90 anos me escutassem saberiam que não tenho nada para dizer para eles. Os jovens de 16 a 25 anos, eles, provavelmente, sabem que não posso dizer nada para eles também – e eles sabem que eu sei disso. É um negócio engraçado. Obviamente, não sou um computador IBM mais do que sou um cinzeiro. Quero dizer, é óbvio para qualquer um que já dormiu no banco de trás de um carro que não sou um professor.

Playboy: Mesmo que você não seja um professor, você não gostaria de ajudar os jovens que estão na batalha a não se transformarem no que alguns de seus pais se transformaram?

Dylan: Bem, devo dizer que realmente não conheço estes pais. Realmente não sei se os pais de qualquer um são tão ruins. Agora, odeio ser visto como um fraco ou um covarde, e realizei isso meio que sem religião, mas realmente não sou a pessoa certa para sair pelo país salvando almas. Não vou atropelar ninguém que esta caído na rua, e certamente não vou me tornar um carrasco. Não pensaria duas vezes em dar um cigarro para um homem faminto. Mas não sou um pastor. E não estou prestes a salvar ninguém do destino, do qual não sei nada sobre. “Pais” não é a palavra chave aqui. A palavra chave é “destino”. Não posso salvá-los disso.

Playboy: Ainda assim, milhares de jovens olham para você como uma espécie de herói folk. Você sente algum senso de responsabilidade com relação a eles?

Dylan: Não sinto que tenha qualquer responsabilidade, não. Qualquer um que escuta minhas músicas não me deve nada. Como seria possível eu ter alguma responsabilidade de qualquer tipo com milhares? O que poderia me fazer pensar que devo alguma coisa para alguém só por estar lá? Nunca escrevi uma canção que começasse com as palavras “eu trouxe vocês que esta noite…” Não vou dizer nada para ninguém sobre ser um bom menino, ou uma boa menina, e eles vão para o céu. Realmente não sei o que as pessoas que estão na outra ponta das músicas pensam de mim, de qualquer maneira. É horrível. Aposto que Tony Bennett não tem que passar por este tipo de coisa. Me pergunto se Billy the Kid teria respondido a essa pergunta.

Playboy: Em admiração à você, muitos jovens estão começando a imitar sei jeito de se vestir – o qual um comentarista adulto chamou de “conscientemente excêntrico e desafiadoramente desleixado”. Qual sua reação a este tipo de crítica?

Dylan: Besteira. Oh, droga de besteira. Sei que um companheiro disse isso. Ele costumava vir aqui e apanhar o tempo todo. Melhor ele pensar nisso; algumas pessoas estão atrás dele. Eles estão indo deixá-lo nu e enfiar ele no Times Square. Eles estão indo amarrar ele e enfiar um termômetro em sua boca. Esse tipo de ideia mórbida e observações são tão mesquinhas – quero dizer que há uma guerra acontecendo. Pessoas estão com raquitismo; todo mundo quer começar uma rebelião; mulheres de 40 anos estão comendo espinafre pelo bando; os médicos não tem a cura para o câncer – e aqui esta um caipira falando sobre como ele não gosta das roupas de alguém. Pior que isso, as coisas são impressas, e pessoas inocentes tem que ler. É uma coisa terrível. E ele é um homem terrível. Obviamente, ele esta vivendo de sua própria gordura, e espera que seus filhos cuidem dele. Os filhos dele provavelmente escutam minhas músicas. Só porque minhas roupas são largas, isso significa que sou desqualificado para fazer o que faço?

Playboy: Não, mas há aqueles que pensam que sim – e muitos deles parecem sentir a mesma coisa sobre seus cabelos compridos. Mas, em comparação com os cabelos nos ombros usados por alguns dos cantores de bandas nos dias de hoje, seu gosto por barbeiros esta do lado conservador. Como você se sente sobre o estilo de cabelo solto?

Dylan: A única coisa que a maioria das pessoas não percebem é que é mais quente ter cabelos longos. Todo mundo quer se esquentar. As pessoas com cabelo curto congelam facilmente. Então elas tentam esconder sua frieza, e ficam com inveja de todo muito que esta quente. Em seguida, elas se tornam barbeiras ou congressistas. Um monte de guardas de prisão tem cabelo curto. Você já notou que o cabelo do Abraham Lincoln foi muito mais longo do que o do John Wilkes Booth?

Playboy: Você acha que o Lincolntinha cabelo comprido para manter a cabeça quente?

Dylan: Atualmente, penso que eram por razões medicinais, que não são da minha conta. Mas, eu acho, que se você descobrir a cabeça, vai perceber que todo o cabelo envolve e se estabelece em cima do cérebro. Matematicamente falando, é o que mais pode sair da sua cabeça, o melhor. As pessoas que querem a mente livre as vezes ignoram o fato de que você tem que ter um cérebro sóbrio. Obviamente, se você tiver o cabelo do lado de fora da cabeça, sua mente vai ser um pouco mais livre. Mas toda esta conversa de cabelo comprido é um truque. Tem sido pensado por homens e mulheres que se parecem com charutos – a comissão anti-felicidade. Eles são todos aproveitadores e policiais. Você pode dizer quem eles são: eles estão sempre carregando calendários, armas ou tesouras. Eles estão sempre tentando entrar na sua areia movediça. Eles acham que você tem alguma coisa lá. Eu não sei porque Abe Lincolntinha cabelo comprido.

Playboy: Até você abandonar as músicas com “mensagens”, você foi considerado não só uma grande voz do movimento de protesto estudantil, mas um campeão militante na luta pelos direitos civis. De acordo com amigos, você parecia sentir um vínculo especial de parentesco com o “Student Nonviolent Coordinating Committee”, qual você é ativamente apoiado, tanto como artista como trabalhador. Por que você retirou sua participação em todas estas causas? Você perdeu o interesse em protestos, bem como em músicas de protesto?

Dylan: Da forma como o SNCC se organizava, conheci alguma pessoas nele, mas eu apenas conheci elas como pessoas, não como parte de alguma coisa que era grande, ou melhor que elas mesmas. Eu nem sequer sabia o que eram os direitos civis antes de conhecer algumas delas. Quero dizer, sabia que tinha negros, e sabia que havia um monte de pessoas que não gostavam de negros. Mas, tenho que admitir, que se eu não conhecesse algumas pessoas do SNCC, pensaria queMartin Luther King realmente não foi nada mais que um herói de guerra desfavorecido. Não perdi nenhum interesse em protestos, desde então. Eu não tinha nenhum interesse em protesto para começar um – não mais do que tinha em heróis de guerra. Você não pode perder o que você nunca teve. De qualquer forma, quando você não gosta da sua situação, você quer sair fora ou destituir tudo. Você não pode simplesmente olhar de longe e se lamentar. As pessoas só vão saber sobre sua situação através do seu barulho; elas realmente não sabem de você. Mesmo que eles te dêem o que você quer, foi só porque você fez muito barulho. A primeira coisa que você sabe é que quer mais, e então você quer ainda mais, e você quer algo mais, até que finalmente isso não é mais uma piada, e seja lá quem for que você esteja protestando contra, finalmente vai ficar farto, e vai pisar em cima de todo mundo. Claro, você pode sair por aí e tentar trazer para seu lado pessoas que são menos que você, mas então, não se esqueça, você esta brincando com a gravidade. Não luto na gravidade. Eu acredito na igualdade, mas também acredito na distância.

Playboy: Você quer dizer que pessoas mantêm uma distância racial?

Dylan: Eu acredito em pessoas que mantêm tudo que possuem.

Playboy: Algumas pessoas podem pensar que você esta tentando policiar o combate das coisas em que você acredita.

Dylan: Essas seriam as pessoas que pensam que tenho algum tipo de responsabilidade com relação a elas. Eles provavelmente querem que eu ajude eles a fazer amigos. Não sei. Eles provavelmente também querem me levar para suas casas, e querem que eu apareça a cada hora para dizer que horas são, ou então eles me querem enfiados no meios de seus colchões. Como eles, possivelmente, poderiam entender no que eu acredito?

Playboy: Bem, no que você acredita?

Dylan: Já te disse.

Playboy: Tudo bem. Muitos de seus colegas cantores de folkpermanecem ativamente envolvidos em lutas pelos direitos civis, liberdade de expressão e a retirada do Vietnã. Você acha que eles estão errados?

Dylan: Não acho que eles estejam errados, se isso é o que eles vêem eles mesmos fazendo. Mas, não pense, que o que você tem lá fora é um monte de pequenos Budas desfilando para cima e para baixo. Pessoas que usam Deus como arma deveriam ser amputadas. Você vê eles por aqui o tempo todo: “Seja bom ou Deus não vai gostas de você, e você vai para o inferno.” Coisas assim. Pessoas que marcham com slogans e coisas assim tendem a tomar a si mesmas como um pouco santas. Seria uma droga se eles, também, começassem a usar Deus como arma.

Playboy: Você acha que é inútil se dedicar a causas como paz e igualdade racial?

Dylan: Não é inútil se dedicar a paz e a igualdade racial, mas sim, é inútil se dedicar a causa; é realmente inútil. Isso é muito desconhecimento. Dizer “causa da paz” é como dizer “pão com manteiga”. Quero dizer, como você pode escutar alguém que quer que você acredite que ele esta se dedicando ao pão e não a manteiga? Pessoas que não podem conceber como os outros sofrem, elas estão tentando mudar o mundo. Eles todos tem medo de admitir que eles realmente não conhecem uns aos outros. Eles provavelmente vão estar aqui muito tempo depois que nós formos, e nós vamos dar a luz à novas pessoas. Mas, eles mesmos – não acredito que eles vão dar a luz à nada.

Playboy: Você soa um pouco fatalista.

Dylan: Não sou fatalista. Caixas de banco são fatalistas; funcionários são fatalistas. Eu sou um fazendeiro. Quem já ouviu falar de um fazendeiro fatalista? Não sou fatalista. Eu fumo um monte de cigarros, mas isso não me faz fatalista.

Playboy: Você foi citado recentemente como tendo dito que “músicas não podem salvar o mundo. Já passei por tudo isso.” Nós entendemos isso como que você não compartilha da crença dePete Seeger, de que a música pode mudar as pessoas, que elas podem ajudar a construir um acordo internacional.

Dylan: Na parte de um acordo internacional, tudo OK. Mas você tem um problema de tradução lá. Qualquer pessoa que esteja neste nível de pensamento tem, também, que pensar sobre essa coisa da tradução. Mas não acredito que músicas podem mudar as pessoas, de qualquer forma. Não sou o Pinóquio. Considero isso um insulto. Não sou parte disso. Não culpo ninguém por pensar desta maneira. Mas só não vou doar nenhum dinheiro para eles. Não considero eles como qualquer coisa sem cultura; eles estão mais para a categoria de elásticos.

Playboy: Como você se sente sobre aqueles que se arriscam a serem presos por queimar suas carteiras de identidade, para mostrar sua oposição ao envolvimento dos Estados Unidos no Vietnã, e por se recusar – como sua amiga Joan Baez fez – a pagar seus impostos em protesto contra os gastos do governo em armas e na guerra? Você acha que eles estão perdendo tempo?

Dylan: Queimar carteiras de identidade não vai acabar com nenhuma guerra. Isso também não vai salvar nenhuma vida. Se alguém pode se sentir mais honesto consigo mesmo por queimar sua carteira de identidade, então legal; mas, se eles só faz isso para se sentir mais importante porque fez isso, então é uma droga. Realmente não sei muito sobre Joan Baez e os problemas dela com impostos. A única coisa que posso dizer sobreJoan Baez é que ela não é a Belle Starr.

Playboy: Escrevendo sobre “barbudos queimadores de carteiras de identidade e não pagadores de impostos pacifistas”, um colunista disse que os manifestantes “não são outros da sociedade que nãojunkies, homossexuais ou assassinos em massa”. O que você pensa sobre?

Dylan: Não acredito nestes termos. São muito histéricos. Não descrevem nada. Muitas pessoas pensam que homossexual, gay,queer, rainha, veado, são as mesmas palavras. Todo mundo acha que um junkie é um freakchapado. Na minha opinião, não me considero excluído de qualquer coisa, só não me considero dentro.

PlayboyJoan Baez, recentemente, abriu uma escola no norte daCalifórnia para treinar trabalhadores dos direitos civis, numa filosofia e técnica de não-violência. Você simpatiza com este conceito?

Dylan: Se você esta dizendo se concordo com isso ou não, realmente não vejo nada para concordar. Se você quer saber se isso tem minha aprovação, acho que sim, mas minha aprovação realmente não vai fazer bem. Não sei sobre outras pessoas que simpatizam com isso, mas minha simpatia vai para os aleijados, deformados e para coisas bonitas. Tenho a sensação de perda de poder – alguma coisa como um sentimento de re-encarnação; não sinto pelas coisas mecânicas como carros e escolas. Tenho certeza que é uma escola legal, mas se você esta me perguntando se eu iria lá, eu teria que dizer não.

Playboy: Como um estudante que abandonou a faculdade logo no primeiro ano, você parece ter uma visão sombria da escola em geral, qualquer que seja o assunto.

Dylan: Realmente não penso sobre isso.

Playboy: Bem, você tem algum arrependimento de não ter terminado a faculdade?

Dylan: Isso seria ridículo. Faculdades são como asilos; exceto pelo fato de mais pessoas morrerem nas faculdades do que nos asilos, realmente não tem diferença. As pessoas tem uma grande benção – a obscuridade – e não são muitas as pessoas que são gratas por isso. Todo mundo sempre ensinou a ser grato pela comida, pelas roupas, coisas assim, mas não a ser grato por ser obscuro. Na escola não ensinam isso; elas ensinam pessoas a ser rebeldes e advogados. Não vou derrubar todo o sistema de ensino; isso seria tolo. É só que realmente não tenho muito o que ensinar. Faculdades fazem parte da instituição Estados Unidos; todo muito respeita elas. Elas são muito ricas e influentes, mas elas não tem nada a ver com sobrevivência. Todo mundo sabe disso.

Playboy: Você estaria aconselhando os jovens a largar a faculdade então?

Dylan: Não estou aconselhando ninguém a fazer nada. Eu certamente não aconselharia alguém a não ir para a faculdade; eu só não pagaria os custos dos caminhos até a faculdade.

Playboy: Você não acha que coisas que você aprende na faculdade podem ajudar a enriquecer a vida?

Dylan: Não acho que qualquer coisa assim iria enriquecer minha vida, não – não minha vida, de qualquer forma. As coisas vão acontecer se eu sei porque elas acontecem ou não. Só fica mais complicado quando você entra de cabeça nisso. Você não descobre porque as coisas mudam. Você deixa mudar; você observa elas mudarem; você impede elas de mudar; você inicia a mudança. Mas você não senta por aí e tenta descobrir porque elas mudam – a menos, claro, que você seja um idiota inocente, ou um sábio velho japonês. Além do que, as pessoas apenas param e perguntam “Por quê?”, quanto você realmente quer descobrir o por quê?

Playboy: Você pode sugerir um uso melhor para os quatro anos que se gasta na faculdade?

Dylan: Bem, você poderia se jogar pela Itália; você poderia ir para o México; você poderia virar uma máquina de lavar louças; você poderia até ir para o Arkansas. Não sei; há milhares de coisas para fazer e lugares para ir. Todo mundo acha que você tem que bater a cabeça contra a parede, mas quando você pensa sobre isso vê que é tolice. Quero dizer, aqui você tem cientistas fantásticos trabalhando em maneiras de prolongar a vida humana, e então você tem outras pessoas que acreditam que é certo que você tem que bater sua cabeça contra a parede para ser feliz. Você não pode ter tudo que você não gosta como um insulto pessoal. Acho que você tem que ir onde suas vontade te levarem, onde você é invisível e desnecessário.

Playboy: Você classifica o sexo entre suas vontades, onde quer que vá?

Dylan: O sexo é uma coisa temporária; sexo não é amor. Você pode ter sexo em qualquer lugar. Se você esta procurando alguém para amar você, aí é diferente. Acho que você tem que ficar na faculdade para isso.

Playboy: Desde que você saiu da faculdade, isso significa que você não achou alguém para te amar?

Dylan: Vamos para a próxima pergunta.

Playboy: Você tem alguma dificuldade em se relacionar com as pessoas – ou vice-versa?

Dylan: Bem, as vezes tenho a sensação de que as outras pessoas querem minha alma. Se eu digo para elas, “não tenho alma”, elas dizem, “sei disso. Você não tem que me dizer isso. Não para mim. Quão idiota você pensa que sou? Sou seu amigo.” O que eu poderia dizer, exceto, desculpas e que estou na pior? Acho que talvez estar na pior e paranoia são a mesma coisa.

Playboy: Paranoia é um dito estado mental, algumas vezes, induzido pela ingestão de drogas alucinógenas como o peyote e oLSD. Considerando os riscos envolvidos, você acha que experimentos com algumas drogas poderia ser parte do crescimento, e de experiências, para os jovens?

Dylan: Não aconselharia ninguém a usar drogas – certamente não as drogas pesadas; drogas são remédios. Mas ópio, haxixe e maconha – agora, essas coisas não são drogas; elas só entortam sua mente um pouquinho. Acho que a mente de todo mundo devia ser entortada de vez em quando. Não por LSD, no entanto. LSD é um remédio – um tipo diferente de remédio. Faz você consciente do universo, por assim dizer; você percebe o quão idiota os objetos são. Mas, LSD não é para pessoas modernas; é para loucos, pessoas odiosas que querem vingança. É para pessoas que normalmente tem ataques cardíacos. Eles deveriam usar na Convenção de Genebra.

Playboy: Você considera, como se aproxima dos 30, que você pode começar a se tornar “quadrado”, perder algumas aberturas para novas experiências, desconfiar das mudanças e novas experiências?

Dylan: Não. Mas se acontecer, então aconteceu. O que posso dizer? Não parece haver nenhum amanhã. Toda vez que acordo, não importa em que posição, é sempre hoje. Olhar para frente e começar a se preocupar com pequenas coisas triviais, que não posso dizer que são mais importantes que olhar para trás e lembrar de pequenas coisas triviais. Não estou indo na direção de ser instrutor de poesia numa escola de meninas; isso eu sei com certeza. Mas isso é tudo que sei com certeza. Vou continuar fazendo estas coisas diferentes, eu acho.

Playboy: Como?

Dylan: Acordar em posições diferentes.

Playboy: O que mais?

Dylan: Sou como qualquer outra pessoa; vou tentar qualquer coisa uma vez.

Playboy: Incluindo roubo e assassinato?

Dylan: Realmente não posso dizer se vou cometer algum roubo ou assassinato, e espero que ninguém realmente acredite em mim. Eu não acreditaria em alguém que me dissesse isso.

Playboy: Lá pelos vinte e poucos anos, a maioria das pessoas já começaram a se estabelecer nos seus nichos, para encontrar um lugar na sociedade. Mas você conseguiu se manter sozinho e descompromissado. O que estimulou você a fugir de casa seis vezes, entre os dez e dezoito anos, e finalmente, a sair por bem?

Dylan: Isso não foi nada; foi apenas um acidente geográfico. Como se eu tivesse nascido e crescido em Nova York ou Kansas City, tenho certeza que tudo teria sido diferente. Mas Hibbing,Minnesota, simplesmente não era o lugar certo para eu ficar e viver. Não havia realmente nada lá. A única coisa que você podia fazer lá era ser um mineiro, e mesmo este tipo de coisa estava ficando cada vez mais difícil. As pessoas que viviam lá – elas sim eram boas pessoas; Estive em todo o mundo desde que saí de lá, e eles ainda se destacam por serem os mais obcecados. As minas foram morrendo, e isso é tudo; mas isso não é culpa deles. Todo mundo da minha idade saiu de lá. Não é uma coisa muito romântica. Não demorou muito para pensar nisso, ou ser o único gênio, e certamente não há nenhum orgulho nisso. Eu não fugi de lá; apenas virei as costas. Eles não iriam me dar nada. Era muito semelhante ao vazio. Então sair de lá não era difícil; seria muito mais difícil ficar. Não queria morrer lá. Agora quando penso sobre isso, não seria um lugar tão ruim para voltar e morrer. Não tem nenhum lugar que me sinto em casa agora, ou com a sensação de que faço parte, exceto, talvez, Nova York; mas não sou um nova-iorquino. Sou de North Dakota – Minnesota –Centro-Oeste. Sou daquela cor. Falo desse jeito. Sou de um lugar chamado Iron Range. Minha cabeça e sentimentos vieram de lá. Eu não amputaria um homem que estivesse se afogando; ninguém de lá faria.

Playboy: Hoje você está a caminho de se tornar um milionário. Você sente algum perigo de ficar preso em toda essa riqueza – por meio das coisas que ela pode comprar?

Dylan: Não, meu mundo é muito pequeno. Dinheiro realmente não pode melhorar nada; dinheiro só pode manter ele sem ser sufocado.

Playboy: A maioria das grandes estrelas acha difícil evitar se envolver, as vezes se entrelaçar, na gestão final dos negócios de suas carreiras. Como um homem com três carreiras prósperas – como concertista, músico de estúdio e escritor de músicas – você já se sentiu preso a tais responsabilidades não criativas?

Dylan: Não, tenho outras pessoas para fazer isso por mim. Elas vigiam meu dinheiro; elas guardam ele. Elas mantêm os olhos nele o tempo inteiro; o que se supõe ser muito inteligente quando se trata de dinheiro. Eles sabem exatamente o que fazer com meu dinheiro. Eu pago eles muito bem. Eu realmente não falo muito com eles, e eles realmente não falam muito comigo, então eu acho que esta tudo certo.

Playboy: Se a fortuna não prende você, o que dizer da fama? Você acha que ser uma celebridade tornou difícil manter sua vida privada intacta?

Dylan: Minha vida privada tem sido perigosa desde o inicio. Tudo isso só adiciona um pouco de atmosfera.

Playboy: Você costumava desfrutar de viagens por todo país – de sair por aí em viagens abertas, pulando de cidade em cidade, sem destino específico em mente. Mas você parece estar fazendo muito menos isso nos dias de hoje. Por quê? Será porque você é muito conhecido?

Dylan: É, principalmente, porque tenho que estar em Cincinnatisexta-feira a noite, e na próxima noite tenho que estar em Atlanta, e então na próxima noite depois disso tenho que estar em Buffalo. Ainda tenho que escrever mais algumas músicas para gravar um álbum.

Playboy: Você terá mais chances de montar em sua moto?

Dylan: Eu ainda sou um patriota estradeiro, mas não ando muito com minha moto por aí, não.

Playboy: Como você tem “estalos” hoje em dia, então?

Dylan: Eu contrato pessoas para olhar nos meus olhos, aí tenho uns “estalos”.

Playboy: É deste jeito que você consegue “estalos”?

Dylan: Não. Então eu perdôo eles; então os “estalos” vem.

Playboy: Você disse numa entrevista no ano passado: “Eu faço tudo que eu sempre quis fazer”. Se isso é verdade, no que você pensa quando olha para frente?

Dylan: Salvação. Simplesmente salvação.

Playboy: Alguma coisa mais?

Dylan: Rezar. Também gostaria de começar uma revista de receitas. E eu sempre quis ser um árbitro de boxe. Quero apitar uma luta do campeonato dos pesos-pesados. Você pode imaginar isso? Você pode imaginar qualquer lutador em sã consciência me reconhecendo?

Playboy: Se sua popularidade minguar, você daria boas vindas a vida de anônimo novamente?

Dylan: Você quer dizer boas vindas, como eu daria boas vindas a alguns pobres peregrinos que chegaram da chuva? Não, não daria boas vindas; aceitaria isso, acho. Algum dia, obviamente, vou ter que aceitar isso.

Playboy: Você alguma vez pensou em casar, se estabelecer, ter um lar, talvez viver no exterior? Há alguns luxos que você gostaria de ter, digo, um iate ou um Rolls-Royce?

Dylan: Não, não penso sobre estas coisas. Se eu quero comprar alguma coisa, eu compro. O que você esta me perguntando é sobre o futuro, meu futuro. Sou a última pessoa do mundo para se perguntar sobre meu futuro.

Playboy: Você esta dizendo que você esta sendo passivo com a sua vida e simplesmente deixa as coisas acontecerem com você?

Dylan: Bem, isso esta muito filosófico, mas eu acho que é verdade.

Playboy: Você uma vez planejou escrever uma novela. Você ainda faria?

Dylan: Acho que não. Toda minha escrita vai para as músicas agora. Outras formas não me interessam mais.

Playboy: Você tem ambições não alcançadas?

Dylan: Bem, acho que sempre quis ser o Anthony Quinn em “La Strada”. Não sempre – apenas por uns seis anos; não é uma daquelas coisas de sonhos de infância. Oh, vamos pensar sobre isso, acho que sempre quis ser a Brigitte Bardottambém; mas realmente não quero pensar muito sobre isso.

Playboy: Alguma vez você teve o sonho padrão da infância de crescer e ser o presidente?

Dylan: Não. Quando eu era um menino Harry Truman era o presidente; quem ia querer serHarry Truman?

Playboy: Bem, vamos supor que você fosse o presidente. O que você realizaria nos seus primeiros mil dias?

Dylan: Bem, só para rir, e já que você insiste, a primeira coisa que eu faria provavelmente seria mudar a Casa Branca. Ao invés de estar no Texas, estaria no lado leste de Nova YorkMcGeorge Bundydefinitivamente teria que mudar de nome, e o General McNamaraseria forçado a usar chapéu de esquilo e sombra no olho. Iria re-escrever imediatamente “The Star – Spangled Banner*”, e as crianças das escolas ao invés de decorar “America the Beautiful”, teriam que decorar “Desolation Row” (uma das últimas músicas deDylan). E gostaria de chamar, imediatamente, Mao Tse-tung para um confronto; eu iria lutar com ele pessoalmente – e pediria para alguém filmar isso.

*Hino Nacional dos Estados Unidos.

Playboy: Uma questão final: mesmo que você tenha, mais ou menos, se aposentado dos protestos sociais e políticos, você pode conceber alguma circunstância que talvez possa te persuadir a se envolver nisso novamente?

Dylan: Não, a não ser que todas as pessoas do mundo desapareçam.