Entrevista Playboy: O lado musical de Rafael Cortez

Aos 40 anos de idade, Rafael Cortez é conhecido por seus trabalhos de comédia nos palcos e, principalmente, na televisão. A passagem pelo “CQC” na Band marcou sua carreira e fez com que o repórter fosse convidado para atuar no Vídeo Show, na Rede Globo, em 2016.  O que poucos conhecem, no entanto, é que o humorista tem um repertório completo no mundo musical. Além de tocar violão, Cortez já gravou um disco solo e possui um projeto musical.

O MDB – Música Divertida Brasileira – é uma banda que apresenta releituras de músicas consagradas da MPB e apresenta para as novas gerações em forma de humor. Cortez conversou com a PLAYBOY e falou sobre o projeto musical, os desafios da carreira e os planos para o futuro.

Confira a seguir a entrevista na íntegra.

PLAYBOY – Como surgiu o MDB?
Rafael Cortez:
Ele surgiu no segundo semestre de 2013, em um momento em que eu estava na geladeira da Record. Na época eu estava bem chateado. Não tinha nenhum projeto da televisão. Por isso, eu tinha dois caminhos: me deprimia ou eu reagia e ia produzir coisas. Eu fui desenvolvendo projetos, mas estava faltando ter uma ideia que realmente me apaixonasse de verdade.

Um dia eu estava na academia e correndo na esteira ouvindo música no Ipod. A minha playlist para correr é muito fora do comum. Eu escuto Maria Betânia, Nara Leão. Naquele dia eu estava escutando uma música chamada peba na pimenta de um compositor maranhense chamado João do vale. É uma música muito engraçada que fala de um forró pé de serra. É uma música muito divertida que foi cantada pela Nara Leão. Aí eu pensei que às vezes tem tanta muita música assim na MPB e por isso deveria se chamar música divertida brasileira. Eu parei o treino, fui para casa pesquisar e me dei conta que ninguém fez algo parecido. Nunca teve uma dedicação e até mesmo uma pesquisa sobre o que é de humor no repertório da música brasileira. Outras pessoas pesquisaram o que tem de erótico, futebolístico e política.

PLAYBOY – Qual foi a motivação para criar o MDB?
Rafael Cortez: A princípio, quando eu tive a ideia do MDB, pensei que seria uma peça de teatro em que as músicas seriam tocadas e os atores encenassem as letras. Mas acabei achando que seria muito complexo. Por isso eu pensei num show de rock e pop também para sanar uma dívida que eu tinha comigo mesmo. Eu sempre fui humorista, a minha parte musical é sempre com base do violão clássico. Eu sempre tive uma frustração muito grande de me apresentar sozinho. E isso é uma coisa muito cruel. Eu chegava sozinho no teatro, me aquecia sozinho no camarim, sentava sozinho no palco e ia para casa sozinho. Eu queria ter uma banda de rock por causa dessa curtição de estrada. Queria dividir camarim, tomar cerveja com os amigos, enfim, curtir. Eu tinha essa frustração por que tudo o que eu fazia na minha carreira de palco era solitário.

PLAYBOY – Como foi o primeiro contato entre você e a banda Pedra Letícia?
Rafael Cortez:
Eu ia fazer a seleção e na época o meu empresário comentou da Pedra Letícia. Mas eu disse de antemão que eles não iriam tocar músicas da banda. E, para minha surpresa, eles toparam. Eu chamei o Cambota para uma conversa e de cara ele topou. Inclusive, ele me apresentou umas cinco músicas que eu não conhecia. A gente se conhecia há muito tempo, mas nunca fizemos nada juntos.

A ideia era apresentar a música sobre uma nova lógica, o que para nós ainda é moderno. A gente acha que o rei do baião é moderno e eles falam de temas contemporâneos, mesmo que tenham falado disso nos anos 40.

PLAYBOY – Você realizou o sonho de ter uma banda?
Rafael Cortez:
É bem perto do que eu imaginava. Acho que realizei esse sonho, levando em conta a trajetória e todos os sonhos que a gente tem na vida. Artisticamente eu estou muito bem. Eu queria ter uma banda de pop rock. Mas eu imaginava que seria um trabalho autoral. Calhou de fazer um repertório de gente antiga da MPB que, inclusive, tem poucos músicos vivos. Eu realizei o sonho, mas agora quero mais. Quero fazer outras coisas relacionada à música.

PLAYBOY – Estava faltando um trabalho de música mais ligado ao humor na sua carreira?
Rafael Cortez: Estava faltando sim, era uma cobrança que tinha do público. Quando eu lancei o meu primeiro disco, o Elegia da Alma, foi totalmente improvável. Eu estava na crista da onda, de uma maneira que eu não estou mais, e tenho consciência disso. O CQC estava bombando no começo de 2011 e cada um dos meninos tinha um trabalho solo, estava faltando o meu. Eu peguei o dinheiro que tinha juntado, a mídia que eu tinha e usei tudo para lançar o CD de violão clássico. Foi a coisa mais estranha naquele momento.

PLAYBOY – Em algum momento existiu uma “cobrança” do público para você produzir algo novo relacionado à música?
Rafael Cortez:
Um humorista do CQC lançando um CD de violão clássico e ainda por cima eram autorais. Fiz o lançamento no teatro TUCA, com 5 mil cópias de CD. Botei gás naquilo. O lançamento foi bem legal. Mas o público estranhou muito no começo, falaram que o projeto era pessoal e não para o público. Me cobraram muito para fazer um outro trabalho e o MDB serviu para disso. Mas eu não fiz para eles, eu fiz para mim. A diferença é que esse projeto vem de encontro com o que o público já estava esperando.

O CD e o show passam por uma certa complexidade. As músicas não são toscas e nós não somos toscos. As músicas têm harmonia, arranjo e são complexas. É o que o público queria, mas também tem a nossa assinatura. Eu não vou me curvar a isso no início da minha carreira.

PLAYBOY – Como foi o processo de seleção das músicas?
Rafael Cortez:
Esse processo foi uma delícia, inclusive eu tenho a maior saudade dessa época. Envolveu muitas tardes, principalmente por que eu tinha tempo. Foi basicamente uma coisa de internet, mesmo que eu tenha procurado muita coisa nos meus discos. Eu fui pesquisar muito o repertório da Maria Betânia e da Nara Leão. Elas são artistas que garimparam muita coisa da MPB ao longo de suas carreiras. Parte das músicas da MDB eu descobri pesquisando na internet e no YouTube.

Fizemos uma pesquisa dos anos 20 e 80 por que eu queria mostrar que lá trás os nossos avós se divertiam com MPB. Eu escolhi parar nos anos 80, por que eu acredito que dos anos 80 para cá, seja de senso comum do que há de cômico. Tem bandas como Mamonas Assassinas e etc. Por isso, o trabalho é muito coeso, bem elaborado.

(Foto: Priscila Frade / Divulgação)

(Foto: Priscila Frade / Divulgação)

PLAYBOY – Como vocês escolhem o novo arranjo da música?
Rafael Cortez:
Piruetas do Chico Buarque, que ele fez para os saltimbancos dos trapalhões. Para mim, combinava com alguma coisa do The Clash, movimento punk-rock. Dito e feito, combinou perfeitamente. No entanto, outras músicas, mesmo que a banda toda ouvisse, não dava para mudar. Tem algumas músicas que não passaram por que são imortais. Não tem como alguém tentar fazer de novo. Em outros casos, o grupo lia e cantava, mas no palco não iria dar certo. Foi nesse momento que a contribuição do Cambota foi muito importante, ele tem a noção da música em relação ao palco.

PLAYBOY – Como foi o lançamento do disco em agosto?
Rafael Cortez: Foi uma delícia. Mas para falar a verdade, nós não entramos em nenhuma zona de conforto. Qualquer zona de conforto que você possa pensar como: o Cortez é famoso ou a Pedra Letícia é famosa” não existe. A banda é famosa cantando Pedra Letícia, eu sou famoso fazendo stand up, então o show foi maravilhoso por que a gente se empenha muito. O MDB só existe por causa disso. Quando eu faço música não tenho nenhuma zona de conforto. E isso é bem diferente do humor. No MDB, eu tenho que fazer as pessoas entenderem que eu também faço música, não só humor.

PLAYBOY – Como está a agenda de shows do MDB?
Rafael Cortez:
Depois do lançamento em agosto, a banda teve uma sequência de 6 shows em várias cidades do Estado de São Paulo. Esses shows são viáveis, sobretudo, por ter um acessível e pela parceria com o PROAC – Programa de Ação Cultural – da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo. Fazemos o show para um público com muito interesse, que vai lá com muito tesão para assistir.

PLAYBOY – Como você vê o atual momento da MPB?
Rafael Cortez: Eu vejo um contra-ataque no meio musical brasileiro. Eu vi de forma muito estarrecida a derrota da MPB para música enlatada. Há muito tempo eu vejo esse fenômeno de alguns estilos de modinha e refrões fáceis estourando nas paradas e destruindo a MPB.  Eu gosto de pensar que faço parte desse contra-ataque, dentro da pequena contribuição do MDB. Esse contra-ataque tem ainda a figura do Thiago Iorc. Ninguém contesta que esse garoto faça MPB, ele sabe o que está fazendo. Você tem também a Maria Gadu, Maria Aydar e outras cantoras da nova geração que representam esse estilo.  Esse pessoal mantêm os princípios, a qualidade, a harmonia e a complexidade da música.

PLAYBOY – Pensando um pouco mais na sua carreira. Como você avalia o atual momento profissional?
Rafael Cortez:
Eu avalio como um grande desafio, para o qual eu cheguei na hora certa. Foi bom ter entrado na Globo no meu nono ano de televisão aberta. Eu tive essa sorte de ter começado na Band e outros programas na televisão aberta. Para mim é como entrar na faculdade mais velho. Você absorve melhor o conhecimento e, realmente, eu entrei na faculdade mais velho. Entrei na PUC, onde me formei em jornalismo, quando tinha 23 para 24 anos. Queria estar formado com 21 anos, mas foi bom. Eu demorei para entrar na Globo, mas acho que foi no momento certo. Eu sou mais maduro e me afeto menos com as adversidades. Sou uma pessoa mais paciente. Eu sempre fiz parte de um nicho, e agora faço conteúdo para muita gente. No Vídeo Show é um projeto emotivo, engraçado, leve e mais família. A televisão me dá visibilidade para eu vender o meu livro, comprar o meu CD e etc. Eu amo fazer televisão. Eu tenho a sorte de sempre me envolver em um projeto que eu gosto.

PLAYBOY – Você acha que o Rafael Cortez do CQC, aquele repórter mais ácido, se transformou em outro quando foi para o Vídeo Show?
Rafael Cortez: Eu não acho. Acima de tudo, uma coisa bacana que acontece na Globo, especialmente no Vídeo Show, é que esses caras bancam as minhas piadas. Se você assistir as minhas matérias no Vídeo Show e comparar com 2008 ou 2009, dá para perceber. A culpa é minha, eu envelheci. Eu tenho 40 anos. Eu tinha um humor mais ácido quando entrei no CQC. Porém, não era apenas lá. Era assim no palco e na internet. Na verdade, eu amadureci o meu humor. Mas eu discordo de que perdi totalmente essa acidez, inclusive, ela faz parte de mim. A minha acidez deu lugar à ironia. Eu mudei, e não foi por imposição de ninguém.

PLAYBOY – Quais são os seus planos para o futuro?
Rafael Cortez:
Eu pretendo conquistar uma autonomia sem depender da televisão. Eu não sei como vai ser esse novo segmento da mídia com a internet e o YouTube cada vez mais forte. Eu preciso da televisão aberta para me dar visibilidade, mas procuro sempre ter projetos paralelos sólidos. A certeza que eu tenho na vida é da minha continuidade nos palcos. Isso começou antes da televisão e vai continuar para o resto da minha vida.

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Rafael Cortez na bancada do Vídeo Show (Foto: Reprodução Instagram)