O espontâneo na fotografia erótica de Haruo Kaneko

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  • Bruno Macedo

Nascido e criado em São Paulo, Haruo Kaneko é fotógrafo e criador do projeto BRWax, onde exibe suas fotografias eróticas. Essa arte chegou ao fotógrafo através de sua maior paixão: o desenho. Formado em design gráfico na faculdade Belas Artes, Haruo passou a registrar em fotos a beleza feminina quando dividia uma casa com duas amigas e a namorada.

O maior projeto de Haruo, o BRWax, que hoje já virou adjetivo e descreve um jeito único de fotografar, surgiu há 7 anos. O ambiente caseiro retratado com intimidade é o principal tema de suas fotos. A maior inspiração não poderia ser outra: as mulheres. Sempre presente ao longo de sua vida, essa é a forma que encontrou para homenageá-las.

Em conversa com a PLAYBOY, Haruo explicou que o conceito por trás das fotos é amplo e o instantâneo é quem dita o rumo do ensaio. “Eu tenho uma preocupação de fazer o melhor com quem eu estiver e aonde eu estiver. Eu não costumo produzir nada, faço tudo na base do improviso”, garante. Além disso, elementos que aparecem em cena, como objetos, sujeira e os rebatedores,  dão ideia do real. É como se o expectador estivesse naquele momento do registro.

Recentemente Haruo virou tema do documentário SNAP – A fotografia de Haruo Kaneko dirigido por Jun Sakuma. Esse projeto é o que o fotógrafo sempre desejou, ou seja, que o conceito estivesse fora da fotografia. Aliás, essa foi uma das críticas do fotógrafo, já que o registro do nu foi banalizado e ninguém tenta ampliar o sentido.

A respeito de suas referências, Haruo diz que busca muita coisa na internet, mas sempre com o cuidado de ter uma certa distância. No entanto, conta que as PLAYBOYs que comprava e consumia na década de 80 e 90 também servem de inspiração.

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A coleção de PLAYBOY no melhor estilo BRWax. Foto: Haruo Kaneko

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PLAYBOY – Como você começou a fotografar?
Haruo Kaneko – Eu sempre gostei de desenhar, desde adolescente. Por isso, resolvi cursar design gráfico na Belas Artes. Eu ilustrava e o que sempre me inspirou foi o corpo feminino. O que me inspira muito é a mulher. A mulher faz o artista passar por uma onda muito grande de felicidade, tristeza e vários outros sentimentos.

PLAYBOY – Quais são as suas referências?
Haruo Kaneko – Eu não tinha a pose certa na cabeça e, para encontrar as referências, eu sempre buscava desenhos na internet e algumas coisas diferentes. Mas chega uma certa hora que isso acaba. Por isso eu resolvi produzir as minhas próprias referências. Eu queria o retrato da menina para desenhar e não importava muito a pose ou a técnica. Daí então eu comprei uma câmera angular para produzir as minhas próprias referências.  Eu namorava e morava em uma casa com duas meninas. A estética ficou muito forte no início por que eu morava num quartinho bem pequeno sem recuo e as janelas não davam muita iluminação.

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Lilian Leite. Foto: Haruo Kaneko/BRWax

PLAYBOY Como foi o resultado no início?
Haruo Kaneko – Comecei a produzir e quando eu fui ver já estava fazendo umas coisas bem bacanas com a câmera. Isso me satisfez como artista e fotógrafo. Passei a não querer só desenhar. Mesmo na faculdade eu tinha aulas de fotografia, mas nunca me interessei tanto.  A reação positiva das modelos mexeu comigo e passei a ter mais gosto pela  fotografia. Depois disso, muita gente me procurou querendo fazer um ensaio, principalmente quando surgiu o Instagram. Eu sou um fotógrafo que espera, não procuro gente para fotografar.

PLAYBOY Qual era a sua relação com a fotografia antes de você se tornar fotógrafo?
Haruo Kaneko – A relação mais próxima que eu tenho era familiar. A minha mãe sempre fotografou a gente. Ela tinha uma Cannon de 35 milímetros e fazia vários álbuns da família. São fotos despretensiosas e tem muita coisa legal. Pode ser até de forma inconsciente que isso me influenciou.

PLAYBOY As suas fotos lidam muito com o espontâneo. Existe alguma “produção” por trás dos ensaios?
Haruo Kaneko – Eu tenho uma preocupação de fazer o melhor com quem eu estiver e aonde eu estiver. Eu não costumo produzir nada, faço tudo na base do improviso. É uma forma otimista de pensar e aproveitar o que tenho naquele momento. Na maioria das vezes eu peço para a modelo interpretar algo e não apenas posar. Eu crio uma situação. Eu gosto do movimento na foto e, inclusive, que passe uma sensação do inusitado.

Patricia Andrade. Foto: Haruo Kaneko/BRWax

PLAYBOY O que você procura levar nas suas fotos?
Haruo Kaneko – Eu procuro ser o mais espontâneo e livre possível, assim como o skate em que pegamos o movimento. Mas, principalmente, é preciso entender a pessoa que está à sua frente. Quando você planeja muita coisa antes, pode ter uma certa frustração. A pessoa tem que ser o que ela é, e também saber em que mundo ela vive. Eu procuro ampliar o conceito do que a pessoa é realmente. Eu sempre procurei fugir das coisas que já existiam, trazer um movimento diferente e causar um estranhamento através das fotos.

PLAYBOY Porque você escolheu entrar nesse universo da nudez feminina?
Haruo Kaneko – Acho que a nudez na mulher inspira muito. Não só a nudez, por que muitas vezes a mulher não quer se despir, mas fica uma foto erótica do mesmo jeito. Para mim, a mulher é um ser que inspira. Eu gosto de uma frase do poeta Charles Baudelaire:  “A mulher é o ser que traz a mais clara luz e a mais negra sombra dentro de um homem” Para um artista, a idolatria pela mulher é sempre bom.

PLAYBOY Como você enxerga a relação entre o sensual e o erótico nas suas fotos?
Haruo Kaneko – O erótico vem mais com a expressão, a sensação e a emoção, além de ser mais verdadeiro como, por exemplo, o empoderamento feminino. O sensual pode ser uma coisa mais posada, fria e existe um certo embelezamento da mulher. Quando você fala erótico as pessoas acham que é uma coisa mais explicita, mas eu discordo. O erótico é a sensação que a imagem te passa e isso está muito próximo do sensual.

PLAYBOY Como surgiu o BRWax?
Haruo Kaneko – Eu comecei a juntar mais e mais referências e resolvi colocar isso on-line para pode acessar onde eu quisesse. Eu criei uma conta no Tumblr para colocar os meus trabalhos. As referências sempre fizeram parte de mim e eu não nego o que sou. Eu não achei certo tirar do BRWax as fotos do começo da minha carreira e deixar só na fase como fotógrafo. Por ser formado em design gráfico eu sabia mexer no conteúdo do blog. Criei um logo, um nome e etc. Foi de forma muito despretensiosa e, quando eu vi, passou a surgir muita coisa legal.

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PLAYBOY E o documentário SNAP?
Haruo Kaneko – Uma produtora me procurou e passou a fazer o conteúdo. Quando nós fomos ver o resultado, ficou bem mais grandioso do que o esperado. Eu sempre busco ir além do sentido da fotografia. Hoje, é muito fácil ser fotógrafo por que todo mundo tem celular, câmera ou pode acessar diversos tutoriais. O que eu mais tento fazer é colocar o conceito através de alguma coisa que eu criei. Eu tento tirar o fotógrafo de cena, ou seja, criar o conceito e deixar uma máquina ali trabalhando. Fugir da fotografia é mostrar que o conceito é muito forte. Eu consigo ser o BRWax não só na fotografia, mas num vídeo, uma exposição ou qualquer coisa que eu faço.

PLAYBOY Qual é a relação do fotógrafo com a modelo na hora do ensaio?
Haruo Kaneko – O processo é quase natural. Eu sempre procuro ser sincero, simples e o menos intimista possível. Isso acaba gerando uma certa intimidade no momento do registro. Se eu não tenho essa intimidade com a pessoa eu procuro criar isso através da foto. Geralmente eu fico amigo delas e sempre dou esse espaço, o que ajuda muito no ensaio.

PLAYBOY O que você acha da estética do nu na sociedade atual?
Haruo Kaneko – A nudez é um fetiche de muito tempo atrás. Eu acho que está banalizando. Hoje em dia a nudez está caminhando para um lado mais sério, como por exemplo, a liberdade e o empoderamento de se fazer o que quer. Existe um lado de imposição social e também de política, onde a mulher faz o que quer.  Eu acho que a mulher está deixando de ser o objeto para se tornar protagonista do sensual. Na década de 70 e 80 a mulher sempre foi considerada como objeto, mas hoje está tomando o lugar dos homens.

Quer ver mais do trabalho de Haruo? Acesse o Tumblr do BRWax clicando aqui.