Entrevistão: João Carlos Martins

O maestro mais popular do Brasil ficou famoso ao tirar a música clássica das salas de concerto. Sua vida virou filme e chega ao cinema em 2017. Aos 76 anos, ele anuncia: vai percorrer o país de ônibus para formar orquestras em cidades de até 30 mil habitantes

Por Victor Ferreira / Fotos Hick Duarte

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“Sol, lá, si, ré, dó, dó, mi, ré, ré…” João Carlos Martins pronuncia em um ritmo impecável e com a voz rouca as primeiras 11 notas de Jesus, Alegria dos Homens, de Johann Sebastian Bach, para explicar o que fez dele um dos mais eloquentes intérpretes do compositor alemão no mundo. “A parte dinâmica não está escrita na obra de Bach, o piano forte, crescendo, diminuindo… Tem poucas anotações”, diz. É como se Bach escrevesse um texto e cada pianista lesse cada frase à sua própria maneira.

O desempenho de João Carlos Martins ao piano, sobretudo quando executava composições de Bach, era celebrado por críticos ao redor do mundo desde que ele tinha 18 anos, em 1958. “O segredo é misturar a individualidade do intérprete com a personalidade do compositor.” Sua carreira ganhou impulso quando a ex-primeira-dama americana Eleanor Roosevelt promoveu o primeiro concerto do jovem João no Carnegie Hall, principal palco da música clássica em Nova York.

Se os parágrafos anteriores soarem eruditos demais, esqueça 1958. Corta para 2016. João Carlos Martins é o maestro do povo, uma leitura muito mais passional de sua carreira. Convidado a conduzir a Tocha Paralímpica, em setembro, ele percorreu a Praia de Ipanema, no Rio de Janeiro, por um minuto e 16 segundos. “Quando peguei a tocha, a praia inteira correu para a calçada. Gritavam: ‘Maestro, maestro!’ É o maestro, entende?”

O maestro tornou-se uma figura querida e popular no Brasil por conta de sua história de superação. Problemas nas mãos o afastaram da música por três vezes, mas ele voltou – por conta das aparições em dezenas de programas de TV, inclusive no fim de uma novela das 8, a Viver a Vida, que contava histórias de pessoas reais ao encerrar cada capítulo; por conta da miscigenação na qual lançou a música clássica, regendo concertos da Orquestra Bachiana Filarmônica, fundada por ele há dez anos, com o DJ Anderson Noise, a dupla Chitãozinho e Xororó ou a bateria da escola de samba Vai-Vai.

Filho caçula de um imigrante português com uma paulista, João nasceu em 1940 e teve uma infância confortável em São Paulo. A família era sustentada pelo pai, caixeiro-viajante vendedor de essências que passou por 500 cidades e mais tarde virou o representante de uma firma francesa de aromas no Brasil. Seu José Martins exigia dos quatro filhos uma formação cultural clássica – todos tomavam aulas de piano e frequentavam o Museu de Arte de São Paulo (Masp), ainda na Rua Sete de Abril, no Centro da cidade.

A vida de João Carlos Martins surpreenderia o mais criativo dos roteiristas, e agora vai virar filme. João, nome ainda provisório, vai estrear em maio de 2017, com direção de Mauro Lima e o ator Alexandre Nero. João jura não ter influenciado no roteiro, embora tenha recusado a primeira versão, encomendada pelo diretor Bruno Barreto, que acabou não dirigindo o longa para evitar atritos com o amigo durante as filmagens.

João recebeu a PLAYBOY na sala de teto preto brilhante, em forma de uma tecla de piano, o cômodo mais simpático de sua cobertura nos Jardins, em São Paulo. Ao contar uma passagem importante da própria história, fazia questão de mostrar as provas de sua fala, como um recorte de jornal de 1958, o recibo de seu primeiro cachê nos Estados Unidos, no valor de mil dólares, e um disco de ouro homenageando a venda de 250 mil cópias de um LP no qual interpreta Bach.

Abaixo você confere cinco perguntas do Entrevistão com o principal nome da música clássica brasileira.

O senhor já era torcedor da Portuguesa?
Torcedor, sempre. Fui bater bola com o pessoal, tinha um time de futebol em Nova York, só de latinos. Nós jogávamos todo sábado, eram equatorianos, peruanos, bolivianos… O único brasileiro era eu. Acabou o treino da Portuguesa e começou o nosso jogo, eu estava com a chuteira do Jair Marinho [jogador da Lusa]. Numa queda, uma pedra pontiaguda lesou meu nervo ulnar, e dois meses depois eu já não tinha sensibilidade nestes três dedos da mão direita. [Mostra os dedos médio, anelar e mindinho.] Isso aliado à minha distonia, que eu já tinha desde os 18 anos de idade. Comecei a rodar médicos, médicos e mais médicos. O maior neurocirurgião do mundo na época, Joseph Ransohoff, fez uma transposição do nervo, eu comecei uma fisioterapia e coloquei dedeiras de aço. Três dedeiras de aço. Um ano depois da queda eu estava voltando a tocar com essas dedeiras de aço.

E como era tocar com as dedeiras?

Dei muitos concertos, em alguns deles saía sangue. Isso está no filme, aparece até o sangue. Até que, depois de um concerto no Lincoln Center, a crítica foi negativa. E eu falei: “Está na hora de parar”. Tinha 30 anos. Telefonei para o meu empresário e disse que era hora de parar. Música tem que ser feita com perfeccionismo e emoção. Emoção eu tinha, perfeccionismo, não mais. Pensei em me suicidar, cheguei a entrar numa banheira com gilete e tudo… Aí tocou o telefone. Saí da banheira e fui atender, era meu professor de piano. Esse telefonema me salvou.

O senhor voltou para o Brasil?
Voltei para o Brasil e pedi emprego, não queria nem ouvir falar de música. Em São Paulo, como tive sorte na Bolsa de Valores, tentei trabalhar num banco, trabalhei no Invest Banco.

Sorte na Bolsa?
Tem uma organização nos Estados Unidos chamada Book of the Month Club [uma associação que seleciona e envia livros novos todo mês para os sócios], eles tinham 5 milhões de associados na década de 1960 e resolveram fazer uma espécie de audição com pianistas para lançar uma coleção. Fui o primeiro músico escolhido, e fiz a  gravação de sete LPs na época, com anúncios de página inteira no The New York Times. [Depois, voltou a mostrar os recortes amarelados de jornal.] A vida começava a ir bem, passei em frente ao Merrill Lynch [banco de investimentos], conversei com um corretor e comprei ações de uma companhia chamada Syntex, da pílula de controle de nascimento, que explodiu naquela época. Quando vi nos jornais que o papa ia fazer um discurso no estádio Yankee, pensei: “Esse assunto é tão comentado, o papa vai falar a respeito e criticar”. Disse para o corretor vender tudo antes de o papa chegar. Tive muita sorte financeira na década de 1960.

E voltou para São Paulo rico?
Nos anos 1970, eu era um cara rico. Foi quando procurei o pugilista Éder Jofre e propus ser o promotor da luta dele para ele tentar recuperar o título mundial. [Éder tinha perdido o título mundial em 1966.] Tive sorte novamente. Quando vi o juiz levantar o braço do Éder, pensei: “Sou um covarde, não tentei o piano novamente”. Aí comprei um piano de uma senhora e comecei a estudar num apartamento pequeno, na Alameda Lorena. Eu já estava fora do mercado, minha carreira tinha sido nos Estados Unidos, aqui no Brasil os vizinhos reclamavam. Consegui deixar o piano mudo e fui estudando muito… Sete, oito horas por dia. Quando estava em forma novamente, uns seis meses depois, tirei o pedal abafador. Novamente, o zelador apareceu: “Ô, seu João, o seu Oswaldo e outra vizinha estão fazendo um pedido… É para o senhor abrir a janela, porque eles não estou ouvindo”. Aí comecei a me sentir em forma, fui trabalhando mais uns três anos, pra valer, para ser um negócio orgânico, não para vizinho, mas para crítico. E fiz minha volta no Carnegie Hall novamente, no dia 24 de setembro de 1978, com 38 anos.

A entrevista completa você lê na edição 492 da PLAYBOY.