Inteligência artificial

O admirável mundo novo das smart drugs

Por Aiuri Rebello / Ilustrações Abiuro

ABRE smart

Aos 32 anos, o funcionário público Allan Caldas se sentia encurralado. Formado em direito cerca de três anos antes, estava infeliz com a carreira. Foi então que decidiu dar uma virada: cursar medicina. Casado e com dois filhos, de 2 e 5 anos, comprou um cursinho online e começou a estudar de madrugada. Hoje, três anos depois, aos 35 anos, Allan cursa o quarto período da Faculdade de Medicina da Universidade Estácio de Sá, no Rio de Janeiro, conciliando os estudos com a família e o emprego. “Estudei por menos de um ano, e consegui.” Seu nome consta em um impressionante 13º lugar na lista do concorrido vestibular do meio do ano de 2014.

Já o representante de vendas e comerciante Fabiano Moura Silva, 29 anos, está animado. Começou 2016 dedicando-se a um sonho: a criação da própria startup. Com a crise, viu minguar o movimento na loja que toca com a mulher em Barueri, Grande São Paulo. Resolveu redobrar esforços e repôs parte da renda como motorista da Uber, alternando com o expediente diurno na loja. E achou tempo para desenvolver seu projeto, que mantém em segredo. “Antes do final do ano, devemos ter um protótipo”, espera.

Em ambos os casos, há um ingrediente em comum que tem seduzido gente no Brasil e além. Tanto o estudante de medicina como o empreendedor creditam o rendimento “sobre-humano” – com longas privações de sono e uma carga de atividade insuportável – às drogas “inteligentes”, ou da inteligência, chamadas no exterior de smart drugs. São uma miríade de substâncias que vão de remédios controlados a simples suplementos alimentares, de plantas, café e nicotina, passando por moléculas obscuras de origem e resultados incertos, com pouco ou nenhum registro na literatura médica. Em comum, proporcionam, comprovada ou supostamente, disposição física e mental, mais concentração e melhor memória, entre outros benefícios. Há relatos de que com elas dá para encarar madrugadas sem perda de atenção ou cansaço, com raciocínio veloz e melhor memória.

A estrela mais popular dessa constelação é o modafinil, batismo genérico de um remédio tarja preta lançado nos Estados Unidos em 1998 pelo laboratório Cephalon, com o nome comercial de Provigil. É indicado para narcolepsia, distúrbio neurológico do sono que faz com que a pessoa caia dormindo em situações corriqueiras como quando está conversando, comendo ou dirigindo. Em 2008, o laboratório criador havia sido condenado a pagar 428 milhões de dólares nos EUA por fazer propaganda da droga como smart drug para pessoas saudáveis. Hoje é produzida por várias multinacionais sob quase uma dezena de nomes. No Brasil, é vendida há cerca de seis anos pela Libbs – que, contatada, decidiu não se pronunciar – e liberada pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) apenas para narcolepsia.

Antecessora na hierarquia das smart drugs tarja preta e ainda bem mais popular no Brasil, a Ritalina é famosa pela capacidade de, em pessoas saudáveis, afastar o cansaço e ajudar a concentração. “Nos plantões noturnos em UTI e em pronto-socorro vários colegas usam, é muito comum”, afirma um médico de 38 anos que prefere não ser identificado. Ele faz, três vezes por semana, plantões de 24 horas na UTI de um prestigiado hospital paulistano. A Ritalina é indicada para o TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade). Vem na esteira de medicamentos como Adderall, Venvanse e Concerta, todos a grosso modo anfetaminas com efeitos negativos pesados e alto potencial de dependência. A novidade do modafinil é que, pela primeira vez, existe uma substância que parece ter uma relação de “custo/benefício” mais vantajosa. Em agosto de 2015, o jornal britânico The Guardian noticiava que cientistas de Harvard e de Oxford haviam analisado os 24 principais estudos científicos sobre o modafinil e concluíram que ele é seguro no curto prazo. Apesar de ainda não haver nenhuma ideia das consequências do uso prolongado, a pesquisa indica que, em pessoas saudáveis, o medicamento melhora o nível de atenção, a capacidade de aprendizado e a memória. Do lado negativo, náuseas, dor de cabeça, ansiedade e mau humor. O estudo indica também que o potencial de abuso e dependência é baixo.

“Não seria possível sem ajuda das smart drugs”, diz Allan sobre a aprovação no vestibular de medicina. “Não fiquei mais inteligente, mas tive um rendimento muito superior.” No começo, ele tomava Ritalina com prescrição após consultar um neurologista, que enxergou nele uma ponta de TDAH mesmo depois de mais velho. Depois, passou para o modafinil e, mais recentemente, voltou para a Ritalina. Allan tem certeza de que sua virada não seria a mesma sem as smart drugs, que segue utilizando algumas vezes por semana. “Estão me ajudando a chegar aonde quero. Sempre que estou de folga ou de férias, paro.” O empreendedor Fabiano deposita nessas drogas – no caso dele, um combo de modafinil com outros compostos – a certeza de que são a principal fonte de seu vigor intelectual. “Não dá para dizer que estou ficando mais inteligente, mas acredito que estou tendo um ganho cognitivo. Fico mais disposto, mais concentrado e com a memória melhor”, diz.

Enquanto o debate segue à margem da regulamentação – não existe nenhuma restrição legal ao uso de drogas “inteligentes” para estudar, trabalhar, prestar vestibular ou concursos –, nenhum dos dois considera imoral usá-las. “Não acho que seja doping, o ser humano já usa substâncias para a melhora cognitiva há muito tempo”, afirma o estudante de medicina. “É um caminho sem volta, um debate do século 21 que tem o potencial de revolucionar a humanidade. A questão é sobre quem vai ter acesso a isso”, pondera o empreendedor. O uso de remédios controlados e outras substâncias fora do seu propósito original não é novo. É notória a empolgação do pai da psicanálise, o austríaco Sigmund Freud, com as propriedades estimulantes da cocaína no início do século 20. Em trabalho publicado no ano passado pelo Instituto Humanitas da universidade gaúcha Unisinos, o doutor em filosofia Marcelo de Araújo e a jornalista Patrícia Fachin fazem um levantamento em jornais brasileiros da década de 1950 sobre o Pervitin, um dos nomes comerciais da primeira anfetamina produzida e vendida por grandes laboratórios depois da Segunda Guerra Mundial. A droga começou a ser sintetizada no fim do século 19, mas foram os alemães que começaram a produzir e utilizar em larga escala durante a guerra. “Cem horas sem dormir para fazer o novo plano-aumento”, noticiava o jornal Última Hora em 22 de fevereiro de 1956. A reportagem era sobre burocratas do governo que viraram noites com a ajuda de Pervitin. No início dos anos 1960, os efeitos colaterais das anfetaminas se tornaram mais conhecidos mundo afora, e seu uso, mais controlado – eram populares nos EUA e na Europa. No Brasil, em 1963, passaram a ser vendidas apenas com receita médica, e foram sendo restringidas.

A popularização do modafinil entre pessoas sem diagnóstico para ele começou nos EUA por volta de 2005, entre estudantes de universidades de ponta, empreendedores do Vale do Silício e executivos de Wall Street. Em 2009, uma pesquisa informal do jornal científico Nature entre leitores apontava que um em cada cinco entrevistados já havia usado Ritalina, modafinil ou outros remédios controlados sem indicação médica como smart drugs. Ainda em 2009, o assunto ganhou as páginas da prestigiada revista The New Yorker. Em 2011, o filme Sem Limites, no qual Bradley Cooper interpreta um escritor fracassado que conquista o mundo depois de começar a tomar uma droga desconhecida, fez explodir a busca por algo que se aproximasse da NZT-48, substância fictícia do filme. Desde então, o universo dos nootrópicos – como são chamadas as smart drugs pelos iniciados – aparece periodicamente na mídia estrangeira. Neste ano, o Guardian publicou nova reportagem sobre o uso indiscriminado de modafinil entre estudantes de universidades de ponta do Reino Unido. O jornal suscita uma discussão ética e aponta estimativa de que ao menos 20% dos estudantes usam ou já teriam usado essas substâncias.

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Ponta do iceberg

De acordo com a neurofisiologista Rosa Hasan, do Laboratório do Sono do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP), a discussão vai além da bioquímica. “As pessoas hoje vivem conectadas e o cérebro não descansa. Com todo esse estímulo, não dormem bem. Aí buscam ajuda para dar conta de algo impossível. Esses remédios têm efeito, mas são superestimados”, afirma. “Além disso, não são inócuos e não deixam ninguém ‘mais inteligente’”, avalia. “A receita da inteligência é a mesma há milênios: alimentação, sono, exercícios e muito estudo, leitura, raciocínio lógico. Não há mágica.” Sobre o modafinil, Rosana concorda que há um salto. “O problema é que não há dados sobre as consequências do uso em longo prazo. Essas substâncias são para quem precisa, não para quem quer trocar uma vida saudável por pílulas”, diz. Apesar disso, para ela uma discussão sobre o uso do modafinil em casos específicos pode ser válida, como para quem trabalha em turnos alternados ou soldados em longas missões. As Forças Armadas norte-americanas disponibilizam a droga com supervisão médica a soldados nessas situações. Fora isso, “acredito que possa existir um ganho, mas o corpo humano não é feito para trabalhar assim. O problema é explicar isso para a sociedade de hoje, sob enorme pressão”. Ela alerta ainda que mesmo o modafinil possui potencial de abuso e de dependência.

O modafinil e seus antecessores são apenas a ponta do iceberg. Existe uma vasta cultura de nootrópicos na qual “stacks” – combinações de smart drugs – são discutidos, avaliados e compartilhados na internet. Entre os remédios citados e outros menos controlados estão suplementos e moléculas produzidas por laboratórios do Leste Europeu e startups norte-americanas e ”não indicadas para consumo humano”, enquanto não são avaliadas pelo Food and Drug Administration (FDA), o órgão regulador do setor nos Estados Unidos.

As smart drugs se desenvolvem com  mais rapidez do que o poder público consegue assimilar. Já existem até celebridades ligadas ao tema. O empreendedor Dave Asprey talvez seja a mais famosa. Com milhões de seguidores nas mídias sociais, o empresário americano sempre aparece em listas de pessoas mais influentes na área de saúde e nutrição. Sem nenhuma formação acadêmica na área bioquímica, Asprey é conhecido por defender o uso de nootrópicos. Todas as manhãs, ingere um coquetel com 15 smart drugs. Como uma espécie de guru, está à frente da Bulletproof, empresa de consultoria de biohacking, prática de usar drogas inteligentes para expandir as capacidades físicas e mentais. Asprey ganhou dinheiro com vendas online e teve cargos importantes em empresas de tecnologia grandes da Califórnia, mas ficou famoso de verdade com o best-seller Bulletproof — a Dieta à Prova de Bala (Rocco, 2016), que já vendeu milhões de exemplares com dicas inusitadas como comer mais gordura e fazer menos exercícios. No Vale do Silício, onde ele atua, há dezenas de startups que desenvolvem um leque de substâncias com cara de ficção científica. Prometem de sonhos conscientes a memória fotográfica.

Em tópicos de sites como Reddit e no Facebook, invariavelmente as discussões descem ao nível técnico, onde reações químicas entre compostos e receptores cerebrais são esmiuçadas com a autoridade de fóruns acadêmicos. Relatos de experiências em primeira pessoa se misturam a receitas e explicações supostamente científicas e outras claramente esdrúxulas. No Brasil, o assunto ainda engatinha: o maior grupo de discussão no Facebook foi criado em fevereiro de 2015. Até abril, tinha cerca de 1.400 integrantes. São estudantes de medicina, direito, concurseiros, executivos, empreendedores e curiosos. “O grupo começou somente com o foco em modafinil”, explica Einstein Nootrópicos, o administrador sob um perfil falso, apesar de no fórum não haver nada ilegal. Ele não tolera o comércio de remédios controlados. “Aí alguém começou a falar de piracetam, cholina, lecitina de soja, alpha GPC, noopept, várias combinações. Virou uma onda, com todo mundo postando seus stacks.” O noopept é tido como uma das últimas palavras em aumento de cognição, e só pode ser conseguido importado pela internet. Não consta em nenhuma lista da Anvisa, e chega pelos correios sem problemas, com taxação extra no máximo. Mesmo remédios controlados, como modafinil e Ritalina, podem ser comprados assim.

O estudante de nutrição paulistano Luiz Fernando Padalino, 28 anos, apresenta-se como consultor de biohacking em seu canal no YouTube sobre nootrópicos. “Entrei em contato com esse mundo faz mais ou menos oito anos”, conta. “Estava acima do peso, comecei a malhar e recorri ao uso de anabolizantes”, lembra. Isso rendeu alguns problemas de saúde e ele consultou um médico. “No meu tratamento, comecei a usar um remédio que me deixava mais ligado. Li a bula e vi que tinha essa característica.” Desde então, Padalino afirma que nunca mais parou de estudar o assunto. “Pretendo aprofundar o biohacking”, diz. Ele conta que se informa pela internet: grupos, fóruns e artigos científicos de toda sorte. Hoje usa diariamente uma combinação de 28 pílulas. “Sou uma pessoa mais feliz, produtiva, bem-disposta, saudável, com uma capacidade de entendimento, memória e curiosidade muito maiores do que antes”, garante.

Para a vice-coordenadora da Comissão de Dependência Química da ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria), Analice Gigliotti, o uso das smart drugs é sedutor, mas tem riscos. “Tenho um paciente, um empresário bem-sucedido, que vive sob muita pressão e veio depois de ficar viciado em Ritalina”, diz. “Começou a tomar por conta própria e sentia que aquilo o ajudava a superar os limites, mas hoje sofre com os efeitos do abuso e dependência.” Ela acha o modafinil mais seguro, mas não inofensivo. “Toda excitação e esforço excessivos do sistema nervoso central têm um custo. A mente não é feita para ficar ligada dessa forma prolongada”, avalia. “Pode causar problemas no fígado, estômago, pressão, não age só na cabeça.” Sobre substâncias menos convencionais, ela é taxativa: “São perigosas, não sabemos de onde vêm, o que têm dentro. A maioria dos psiquiatras não conhece nem o modafinil, quanto mais essa loucura toda”. Para ela, “nenhuma substância faz brotar ideias geniais em ninguém”.

No grupo brasileiro há uma jovem formada em direito que estuda para concurso público e diz estar viciada em modafinil. “Eu tomo 400 mg por dia há três anos” – o dobro da dose recomendada e sem prescrição médica. Sem saber se sua dependência é psicológica ou física e o verdadeiro grau de intoxicação, pois se recusa a procurar ajuda médica, ela busca com colegas de discussão fórmulas para solucionar o problema. No Brasil, apesar de modafinil, Ritalina e da maioria dos medicamentos do gênero serem vendidos com receita controlada pela Anvisa, não é difícil conseguir sem prescrição. Além dos sites, vendedores buscam nos fóruns possíveis clientes de medicamentos restritos. Golpes são frequentes. É comum o uso de receitas e remédios fornecidos por amigos e parentes médicos, pacientes, farmacêuticos ou ligados aos laboratórios.

“Deu uma clareada”

Em uma manhã de maio, em uma volta pelo centro de São Paulo, não tive dificuldade de encontrar receitas controladas. A amarela ou azul vazia custa cerca de 60 reais. Preenchida com CRM e assinatura sai por entre 90 e 120 reais. A única orientação é a de que a compra seja feita em farmácias distantes dali.

Certificado de que estou em boas condições de saúde, testei o modafinil. Pela apuração, me pareceu o mais seguro para alguém que nunca usou algo do tipo. Na bula aprendo que não deve ser usado junto com bebidas alcoólicas, tem potencial de abuso e dependência. É contraindicado para hipertensos, portadores de condições no coração, no fígado ou nos rins, dentre outros. Também existe interação medicamentosa com uma lista extensa de remédios e uma série de outras advertências temerárias. A bula indica ao paciente que procure ajuda em caso de: dificuldade de respirar ou inchaço, erupções de pele pelo corpo (incluindo genitais), febre, alterações de humor ou pensamentos anormais, tais como agressão ou hostilidade, esquecimento e confusão, extrema felicidade, hiperatividade, ansiedade, nervosismo, depressão, comportamentos suicidas, agitação ou psicose. Finda a bula, prossegui.

Fiz duas experiências. Na primeira, tomei pela manhã um comprimido de 100 mg, metade da dosagem diária padrão. Não mudei a rotina, inclusive com menos horas de sono do que gostaria e várias xícaras de café ao longo do dia. Estava entre cético e curioso, mas não esperava grandes efeitos. Menos de duas horas depois, senti que dei uma “levantada”. Minha cabeça deu uma clareada e resolvi algumas burocracias pessoais que empurrava com a barriga. Depois, nadei e senti bastante desconforto cardíaco durante o exercício. Voltei para casa, encaminhei contatos para esta reportagem e percebi que não havia comido. Não tive fome todo o dia. Talvez por isso, no fim da tarde, de seis a sete horas depois do comprimido, tive uma pequena dor de cabeça aplacada com um lanche. Antes de anoitecer, fui dominado por cansaço e sono, que arrefeceram algumas horas depois, e minha disposição estava normal no resto da noite. Afora a boca seca, não tive insônia nem nenhum efeito colateral. Deu uma luz, mas fiquei com a impressão de que podia ser efeito placebo.

Na segunda tentativa, alguns dias depois, tomei a dose recomendada de 200 mg. Trabalhei com sofreguidão por cerca de 15 horas, das 11h às 2 da madrugada. Pouco mais de uma hora após engolir a pílula, uma leve – e confesso que até gostosa – arritmia cardíaca denunciou a chegada do efeito. Fora as atividades diárias corriqueiras, fiz quatro entrevistas telefônicas, li e respondi e-mails e mensagens sobre esta e outra reportagem que desenvolvia simultaneamente, li quase 20 artigos em inglês para este trabalho, revisei, pela enésima vez, o projeto de um livro que estou ajudando a organizar e que achava estar perfeito (flagrei errinhos). Por fim, escrevi alguns parágrafos desta reportagem que, se não foram os melhores que já produzi, também não foram os piores. Não que nunca tenha trabalhado tanto ou até mais sem nenhuma “smart drug” fora o café —  mas fazia tempo que não acontecia. De novo boca seca, falta de apetite e, desta vez, algumas espinhas na cara que não tinham outra explicação. A surpresa veio no dia seguinte. Fui dormir cansado, mas acordei sem despertador exatas oito horas depois, revigorado. Eu no meu melhor estado. Com a cabeça e o corpo descansados e vivos como não sentia há muito tempo, segui assim todo o dia até por volta da meia-noite e fui dormir normalmente. Na manhã seguinte, tudo normal.

Nunca vou saber ao certo que parte do efeito foi autossugestão ou não, mas, depois da experiência, minha conclusão é que o modafinil traz um ganho de concentração. Também evita sono e cansaço, mas sobre a memória não senti diferença. Os efeitos colaterais não foram perturbadores, e até a falta de apetite foi contornável. O modafinil ajuda a “conectar” a leitura com uma velocidade e nível de apreensão maiores. É como se, ao iniciar uma tarefa, sentíssemos desconforto com a ideia de não terminá-la. Isso não é necessariamente bom, algumas coisas precisam de tempo. Quem convive comigo não reparou alterações comportamentais, mas senti que fiquei mais distante emocionalmente.

Não é nada sobrenatural, não me deixou mais inteligente nem fez com que eu conseguisse algo que não seria possível sem a smart drug. Me ajudou a produzir um volume grande de trabalho por um tempo prolongado. A experiência deixou a impressão de que uma realidade como a  do Admirável Mundo Novo, de Aldo Huxley, ou do THX 1138, de George Lucas, pode não ser uma distopia tão distante. “O problema não é se as pessoas vão usar, isso já está acontecendo”, afirma o biohacker brasileiro Padalino. “Imagine um cirurgião num futuro no qual exista um nootrópico que, comprovadamente, faz com que ele opere com mais precisão. Não seria justo exigir que ele consumisse a substância antes de uma cirurgia?”, provoca.

Nos EUA, a indústria farmacêutica prepara o sucessor do modafinil, já em aprovação. A imprensa especializada aponta efeitos preliminares impressionantes em portadores de mal de Parkinson e Alzheimer. Tudo indica que pode ser um remédio revolucionário e droga da inteligência de nova espécie. Parece bom demais para ser verdade. Deve haver alguma pegadinha, e minha intuição, ou ignorância, sobre uso indiscriminado de qualquer coisa me diz que talvez não seja uma boa. Decidi jogar a caixa de modafinil no fundo de uma gaveta e esquecer o assunto. Pelo menos por enquanto.