Que Lisboa é essa?

Capital portuguesa reflete o momento sedutor de transformação do país e abandona a fama de lugar parado no tempo para se tornar uma metrópole dinâmica

Duas da manhã de uma quarta-feira de inverno. Enquanto o verão brasileiro convida as pessoas a ocuparem áreas ao ar livre, a baixa temperatura na Europa castiga, mas não inibe os boêmios. De segunda a segunda, o volumoso público aglomerado nas ladeiras do Bairro Alto, no centro de Lisboa, bebe uma cerveja enquanto decide a próxima parada – pode ser uma festa, outro boteco, um after na casa dos amigos… Lisboa, essa cidade cheia de idosos desapressados lotando os bondes que andam a 30 km/h, é um agradável contraste entre ares passados e uma cena noturna intensa e jovem, apinhada de bares arrumados, inferninhos, baladas sofisticadas e outras mais alternativas. Mas esses ventos de renovação também  circulam durante o dia, quando clubes noturnos cedem a vez a livrarias, lojas de design e de itens para cozinha (haja conservas de sardinha, vinhos verdes e do Porto, quitutes com ovos e açúcar) e outros achados. À noite ou de dia, vale o exercício de se perder pelas ruas íngremes e labirínticas dos bairros lisboetas, cujas ladeiras extenuariam qualquer musa fitness. Esqueça o Seu Manoel da padaria, a gaja de bigode, o português tido como burro e outros preconceitos. Desapegue da ideia antiga de Portugal estancado no tempo e conheça essa fase rejuvenescida pela qual os patrícios passam. O país que amargou a crise de 2008 ressurge vibrante graças a um cruzamento de iniciativas espontâneas e outras medidas oficiais de recuperação.

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Barraquinhas às margens do Rio Tejo servem bebidas que acompanham o pôr do sol único da cidade

Capital renovada

Alguns movimentos de reorganização de sociedades quebradas nasceram de forma orgânica desde a crise que afetou, principalmente, Portugal, Espanha, Itália e Grécia. Semelhante à reurbanização pela qual passaram metrópoles como Nova York (Meatpacking District), Londres (Shoreditch), Amsterdã (a região portuária NDSM) e Berlim (Kreuzberg), Lisboa, a capital de um país tão antigo, também viu a ocupação de áreas abandonadas, motivada especialmente pelos preços inflados e pela saturação de zonas centrais. O Cais do Sodré fica na baixa Lisboa, a três ou quatro pontos de ônibus do Bairro Alto, e concentra um misto de iniciativas privadas e públicas de revitalização. Oficialmente, ficou conhecido por ter sido uma importante região portuária no século passado. Na prática, devia sua popularidade também aos inúmeros prostíbulos, portos seguros dos marinheiros após meses na solidão do mar. Mas as intensas transformações relativamente recentes – troca de moeda (2002) e mudança das atividades econômicas – derrocaram aos poucos o Cais, outrora tão valioso. Algum tempo após o conturbado ano de 2008, porém, o local entrou na mira da recuperação. Obras foram feitas nas ruas, prédios históricos foram restaurados e o comércio mudou de cara. Hoje, a região entra em ebulição a partir da 1h30, quando os bares do Bairro Alto começam a fechar as portas por conta da lei e os notívagos insaciáveis descem para o Cais.

A noite é sempre uma criança na Rua Nova de Carvalho, lotada de bares e clubes noturnos abertos madrugada adentro, e na Rua do Alecrim, onde a Pensão Amor sedia uma noite fetichista regada a drinques, música para dançar e esconde até uma sex shop nos fundos. Na mesma região, outro importante espaço voltou a funcionar após um longo processo de restauração. O Mercado da Ribeira, que abrigava vendedores de hortifrúti e de flores, reabriu há dois anos totalmente transformado. Miguel Castro e Silva, Henrique Sá Pessoa e outros chefs aprovados pela revista Time Out Lisboa, responsável pela repaginação do local, instalaram bancas com suas receitas no vasto galpão. Nas mesas comunitárias do mercado de 5 mil metros quadrados predominam pratos e  redutos típicos, como variedades de bacalhau, embutidos, arroz de pato e o sanduíche prego, primo europeu do brasileirão “x-churrasco”. Aberto até de madrugada, o horário de funcionamento ajuda os incansáveis baladeiros a manterem o pique. Em Alcântara, bairro ligeiramente afastado do centro, uma área de galpões e armazéns espalhados por 23 mil metros quadrados foi resgatada para se tornar um dos pontos mais interessantes e ecléticos da capital, a LX Factory. Inaugurado há quase oito anos, o empreendimento ganhou esse nome por estar em uma antiga zona fabril do século 19 que mantém a estrutura portentosa e retrô até hoje.  Atualmente, o espaço colorido por grafites moderninhos abriga uma fauna diversificada. Agências de publicidade, produtoras de cinema e lojas de roupa e design autorais coexistem com consultórios de profissionais da saúde, startups e escritórios de arquitetura. Chegar no fim da tarde e se embrenhar pelas ruas até o cair da noite, para então se acomodar num dos bares ou restaurantes do local, é uma opção de giro que foge do óbvio e escancara a Lisboa vintage e “fixe” – que, no carregado português de Portugal, significa descolado, cool.

Siga o dinheiro

O bom momento de Lisboa reflete o que está acontecendo no país como um todo. Dados do Consulado Geral de Portugal em São Paulo mostram o aumento do interesse dos brasileiros pelos próprios colonizadores, num movimento de “descobrimento inverso”: nos últimos cinco anos, 40 mil novas nacionalidades portuguesas foram concedidas somente na unidade. O entusiasmo dos estudantes também cresce. Uma reportagem do começo deste ano do jornal Público, um dos maiores do país, destacou um aumento de 74% no número de estrangeiros nos últimos cinco anos, sendo que os brasileiros encabeçam a lista. Segundo Raul Santos, porta-voz da Universidade do Porto, “os brasileiros representam 18% da comunidade internacional, de longe os estrangeiros mais numerosos”. Além da cidade, Braga, Coimbra e Bragança também têm universidades disputadas. Essas e outras instituições de ensino são muito visadas por empresas de olho em projetos inovadores.

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É o caso da Portugal Ventures, uma Sociedade de Capital de Risco criada em 2012 cujo foco é o investimento em projetos científicos e tecnológicos. Ao todo, ela gerencia cerca de 450 milhões de euros distribuídos entre startups variadas, como a BoomApp, aplicativo que funciona como um Shazam para vídeos e imagens, e a Chic by Choice, site de aluguel de vestidos de grife a preços acessíveis. Já a InvestBraga, em atuação há cerca de dois anos, atrai capital estrangeiro para startups locais. “Todas as 65 companhias que apoiamos são de base tecnológica. Braga é conhecida como a Silicon Valley portuguesa”, diz o presidente, Carlos Oliveira. Como incubadora, a empresa acelerou duas startups em processo de expansão para o Brasil, a Seatwish, de revenda de ingressos, e a Nutrium, que aproxima nutricionistas e pacientes. O programa Portugal 2020 é outra providência oficial de fortalecimento econômico do país. O pacote de 16 operações iniciadas em 2014 deve ser concluído até 2020 e privilegia o financiamento de startups tecnológicas e de conhecimentos científico e criativo. O governo banca entre 70% e 75%, e o pagamento do empréstimo pode ser quitado sem juros em até oito anos. Desde a crise de 2008, Portugal também procurou desenvolver medidas para captar recursos estrangeiros. Uma delas foi a criação dos “vistos gold” (nome informal para Autorização de Residência para Investimentos) em 2012. Ele concede livre trânsito pela Europa a quem investe à vista em áreas predeterminadas do país. São candidatos os que compram um imóvel com mais de 30 anos ou em uma região de reabilitação urbana por pelo menos 350 mil euros, ou um imóvel em outra área ao custo mínimo de 500 mil euros; e os que abrem empresas com ao menos dez funcionários diretos contratados. Em seis anos, o beneficiário pode pedir a nacionalidade portuguesa.

O Brasil só perde para a China no ranking dos países que mais usam esse recurso. No último ano, as regras desse programa foram afrouxadas. Desde então, entre os possíveis beneficiários do visto estão também aqueles que aplicarem 250 mil euros ou mais em produção artística, preservação ou conservação de patrimônio cultural. A mudança é uma tentativa de tratar outro problema: o de envelhecimento da população e a consequente escassez de pessoas em idade economicamente ativa. A mesma crise que balançou a economia lá em 2008 também espantou a parcela mais jovem de Portugal, que foi para outros países da União Europeia atrás de oportunidades mais sólidas. Numa projeção pessimista, o Instituto Nacional de Estatística prevê que, caso o problema não seja enfrentado, a população portuguesa cairá de atuais 10,5 milhões para 6,3 milhões em 2060, ao passo que a proporção de idosos em comparação aos jovens de até 15 anos crescerá 30%. Se depender das iniciativas dos nossos colonizadores, as transformações na terrinha vão se intensificar. Com tanta mudança, até o fado, ritmo português de clima dramático e melancólico, pode acabar virando pop – prova de que uma crise prejudica, mas também reanima energias criativas.

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O Gin Lovers funciona há cinco anos e reúne 60 rótulos da bebida

Fotos: André Pires