O milagre do Hudson

“É um lindo dia no Rio Hudson”, disse o capitão Chesley “Sully” Sullenberger, logo após decolar de Nova York com 155 pessoas a bordo. Ele não imaginava que, logo depois, perderia os dois motores e faria uma das manobras mais ousadas da história da aviação comercial. Em queda livre a metros dos arranha-céus, Sully contrariou a ordem de voltar para o aeroporto e pousou no rio que banha a metrópole. A aterrisagem foi tão perfeita que o avião boiou e todos puderam aguardar por resgate sobre as asas, sãos e salvos, em uma imagem que marcou o ano de 2009.

Mas Sully – O Herói do Rio Hudson, filme de Clint Eastwood que estreia em 15 de dezembro, não é (apenas) sobre esse pouso forçado. O longa destaca as investigações pós-acidente sobre um piloto que salvou vidas e que foi alçado imediatamente ao posto de herói americano. Um profissional que, diante do olhar meticuloso da máquina burocrática, foi obrigado a se aposentar prematuramente porque mais de 20 simulações de computador garantiram que ele poderia ter voltado para o aeroporto La Guardia. “Tenho 40 anos de experiência e, no fim, serei julgado por 208 segundos”, desabafa Sully, em uma das frases-chave do filme.

Foi o dilema sobre o certo e o errado e sobre a leitura cega dos manuais, muito além da mera representação do acidente nas telonas, que motivou Clint Eastwood a recontar o “Milagre do Hudson”, como foi chamado. “Qualquer um que faz uma aterrisagem perfeita e tira todo mundo de um avião a salvo é um herói. São toneladas e toneladas de aço e titânio, e se ele não plana, todo mundo se vai”, defente Eastwood, em entrevista exclusiva para a PLAYBOY e para outros cinco jornalistas europeus em Los Angeles. “Todo mundo que faz bem o seu trabalho é um herói”, completa o diretor.

Tom Hanks interpreta o protagonista do filme, exibindo cabelos brancos e bigode. Para dar mais fidelidade às cenas, ele e Aaron Eckhart, que interpreta o copiloto Jeff Skiles, passaram várias horas em um simulador de voos. Mas, no computador, o final não foi feliz como na vida real. “A coisa mais difícil era aterrissar. Era incrivelmente realístico, um videogame incrível. Você sente o avião, a gravidade. Mas não tinha perdão. Pedi desculpas inúmeras vezes porque não consegui seguir a tal da linha amarela e deu tudo errado”, conta Hanks, às gargalhadas.

Um Airbus A320 verdadeiro foi usado nas gravações. “Era um avião real, exatamente o mesmo tipo do acidente. Cogitamos levá-lo para o Hudson, mas não foi permitido, além de que seria bastante caro”, ressalta Eastwood. A solução foi encher uma piscina gigantesca nas instalações da Warner e montar o avião lá. Convidada pelo estúdio, a PLAYBOY pôde assistir a pouco mais de 20 minutos de cenas da produção, fora de ordem e ainda sem os efeitos especiais. Independentemente do pouco que se viu, é possível dizer que o drama de um herói americano, com diretor consagrado e elenco estelar, deve aterrisar com tudo no Oscar 2017.

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Diretor de destaque

Para seu 35º filme atrás das câmeras, Clint Eastwood resgatou um pouco da própria história – pouco conhecida do público. “Eu tinha 21 anos, era soldado e estava em um voo militar quando caímos no oceano. Eu e o piloto nadamos por vários quilômetros para sobreviver”, relembra. Na época, o próprio Eastwood foi submetido a uma criteriosa investigação para apurar a causa do acidente, que de certa forma interrompeu sua carreira militar (para o bem do cinema). “Mais tarde descobri que havia tubarões na área onde caímos. Por sorte eu não sabia na época!”, ri.

Nos últimos anos, Clint Eastwood tem se dedicado a dar voz a heróis americanos contestados, como em J. Edgar (2011) e Sniper Americano (2014). Com Sully, ele repete a fórmula. Crítica ao sistema? “Você pode interpretar assim”, afirma o diretor republicano, apoiador de Donald Trump nas eleições americanas. “Após o 11 de setembro, as pessoas começaram a valorizar mais seus heróis”, defende. O diretor não vê conexões entre o sniper Chris Kyle, condecorado como o franco-atirador mais letal dos Estados Unidos, e o piloto Chesley Sully, aposentado após salvar 155 vidas. “São experiências diferentes. Todo filme é diferente do outro, e é por isso que continuo fazendo filmes.” Já Tom Hanks vê semelhanças: “São dois bad-asses interpretados por atores perfeitos”, brinca, esbanjando bom humor.