Transar é legal, mas…

Sem “mas”. Sexo é bom e todo mundo gosta. Talvez a gente apenas devesse parar de tratá-lo como uma obrigação e criar espaço para, simplesmente, curtir

Por Jeanne Callegari / Ilustração Eduardo Kerges

“Sexo é bom, mas vocês já comeram pão de alho?”, dizia o despretensioso tuíte de uma jovem, em uma tarde de sexta-feira em fevereiro de 2016. Não demorou muito para a brincadeira se espalhar pela internet e virar meme, as pessoas fazendo suas versões da piada: “Transar é bom, mas vocês já experimentaram Bis branco?” O site Buzzfeed logo fez sua lista de coisas melhores que sexo, de receber a pizza antes do previsto a fazer xixi depois de ficar oito horas segurando (você conhece a sensação…).

Na esteira desse meme, vieram outros. “Quem gosta de sexo é adolescente, adulto gosta mesmo é de ir na Leroy Merlin.” Ou a minha preferida: “Quem gosta de sexo é adolescente, adulto gosta mesmo é de estar com os boletos em dia” (atire a primeira

conta de luz quem nunca sentiu um certo júbilo ao pagar um aluguel sem multa). Zoeira infinita à parte, os memes pareciam contrariar a ideia corrente de que sexo é a melhor coisa do mundo, a prioridade número 1 da existência.

O que, em alguns círculos, parece ser mesmo. “Se a justificativa for transar, você pode faltar até no casamento do seu melhor amigo”, comenta C., um colega de ofício. Recentemente, saímos de uma palestra, um evento desses lotados de escritores, e fomos esticar a prosa em um bar. Com um sorriso sugestivo, C. pediu desculpas e disse que não podia ficar, pois já tinha uma “reunião” marcada. Sacando do que se tratava, rimos e deixamos pra lá. Dias depois, encontrei C. para uma cerveja. Aproveitando para brincar um pouco, perguntei se a “reunião” havia sido produtiva. Um pouco embaraçado, C. me contou a verdade: não havia compromisso nenhum, nenhum encontro amoroso. Ele tinha ido para casa escrever, trabalhar em seu novo romance. Mas, por achar que essa explicação soaria boba, ainda mais em uma mesa cheia de escritores, preferiu deixar no ar a ideia de que tinha um encontro.

Não pude deixar de rir. Afinal, quantas vezes já desmarquei compromissos com amigas em cima da hora para ir encontrar um crush? E quantas vezes já levei bolo de amigas e amigos pela mesmíssima razão? No filme canadense Sexo Sem Complicações, de 2007, a personagem Abby pergunta ao marido, Andrew, quando foi a última vez que transaram. Diante da hesitação dele, ela diz: “A resposta deveria ser sempre ‘ontem’”. De fato, esse parece ser o jeito correto de responder à pergunta “qual foi a última vez que você transou?”. Lembro dos olhos arregalados de todos quando, em um papo em outro bar, depois de algumas cervejas, uma amiga disse que estava sem transar desde o fim de seu último namoro, um ano e oito meses antes.

Não basta transar. Tem que ser muito, e sempre, e com a maior variedade de parceiros possível. Pelo menos em alguns segmentos da sociedade, sexo é algo hipervalorizado, como um bilhete premiado da loteria. E se você tem oportunidade de fazer, melhor agarrar. Forte. Com as duas mãos. E já ir desabotoando a calça.

Como se todo mundo fosse obrigado a ter uma vida sexual incrível. Aplicativos de encontros como Tinder, OK Cupid e Happn fazem parecer que é fácil: um toque e você pode encontrar alguém com quem passar a noite. Mas, se a expectativa é uma vida sexual com fogos de artifício o tempo todo, a chance de frustração é imensa. Comprometidos ou no varejo, encontrando novos pares a cada semana, a probabilidade maior é de que nem sempre tudo seja maravilhoso. Pelo contrário.

Nesse cenário desolador, faz sentido que as pessoas se cansem de tanta complicação e prefiram comer uma caixa de chocolates, em vez de transar. Diabos, tem dias que até pagar um boleto parece mais divertido. Mais… simples. Sexo é cheio de incertezas, inseguranças. A gente nunca sabe se vai ser, ou se foi, bacana. Já os boletos, bem, se tem uma coisa de que podemos ter certeza no mundo em que vivemos é esta: os boletos nunca vão decepcionar.

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(Ilustração: Eduardo Kerges)

UM BOM ARROZ COM FEIJÃO

L., professora e escritora, gosta de comparar sexo a comida. “Por mim, faço todo dia”, diz. “Mas isso porque nem sempre preciso de um boeuf bourguignon. Às vezes, um pão com ovo mata a fome. E tudo bem”, diz ela. E não é só no grau de refinamento que o sexo se parece com comida. Mas também no fato de serem vazios que nunca se preencherão.

“Você pode jantar exatamente o que queria, um sushi num restaurante japonês maravilhoso, por exemplo. Mas sempre terá deixado de lado uma pizza ótima, ou a sobremesa”, completa L., que também é psicanalista. Ainda que nada falte, amanhã será preciso comer novamente. O buraco nunca é preenchido. O mesmo, claro, se aplica ao sexo. Nos anos 1970, o psicanalista francês Jacques Lacan disse que “não existe relação sexual”. Como muitos dos aforismos dele, esse também não é dos mais fáceis de decifrar, mas uma boa hipótese é a ideia de que não existe encaixe perfeito entre os amantes. Sempre falta algo, ou sobra. Porém, o fato de que as metades sexuais da laranja nunca se encaixarão por completo pode ser um bom motivo para tentar de novo, e de novo, e de novo. Por mais saciados que fiquemos, a fome sempre volta. Melhor se conformar do que tentar sem sucesso, encontro após encontro, preencher esse vazio, e com não pequena dose de angústia no processo. Se é fato que assim é, e tudo bem, dá pra curtir os momentos. Abrir espaço para o feijão com arroz, para o pão com ovo, para o boeuf bourguignon.

DO KARAOKÊ PARA A CAMA

Era uma terça-feira à noite e eu caminhava pelo centro de São Paulo com um amigo, D. Estávamos comentando um texto da filósofa americana Marilyn Frye, que escreveu que, embora heterossexual, a cultura masculina é homoafetiva.

Segundo ela, os homens hétero podem gostar de transar com as mulheres, mas, em sua maioria, seu afeto é destinado a outros homens. “As pessoas que eles admiram, respeitam, adoram, veneram, honram, que eles imitam, idolatram; com quem criam vínculos mais profundos, a quem estão dispostos a ensinar e com quem estão dispostos a aprender; aqueles cujo respeito, admiração, reconhecimento, honra, reverência e amor eles desejam: estes são, em sua maioria esmagadora, outros homens”, diz ela.

Nesse momento, passamos por um boteco pé-sujo, daqueles que existem aos montes no centro da cidade. Dois rapazes, na casa dos 30 anos, faziam uma performance tão sincera quanto desafinada de Menina Veneno no karaokê. Ri e olhei para D. com a minha melhor cara de reprovação. “É por isso que o afeto dos homens acaba ficando entre eles! Tem umas besteiras que só dá pra fazer entre os bróders”, brincou. E aí me ocorreu: a performance não é algo que a gente faz só na cama. Fora dela, também rola uma representação de papel, um esforço pra parecer interessante. Sabido, adulto, maduro.

Quando encontramos alguém com quem podemos relaxar, ser mais “nós mesmos”, deixando as máscaras de lado, e fazer tolices como cantar desafinados em um karaokê ou comer amendoim com doce de leite assistindo a filmes de super-herói, e temos, ao mesmo tempo, tesão, talvez seja hora de passar mais tempo juntos. “Não fica muito melhor do que isso”, afirma D., do alto da melancolia de seus últimos casos malsucedidos.

SEM SAUDOSISMO

“Quando eu tinha 15 anos, ficava de pau duro sempre que pensava em sexo. E eu pensava em sexo o dia todo”, diz E., programador na casa dos 30. “Dos 15 aos 17, não conseguia controlar meu pinto. Ficava duro quando bem entendia; na maioria das

vezes, nas piores situações possíveis”, completa D. M., advogado de 37 anos. Aos 30 anos, a maioria dos caras já superou essa urgência e, embora sexo continue sendo um tema importante, como já concluímos, não é mais aquela sangria desatada. Já deu pra sacar, por exemplo, que transar depois de chegar da balada bêbados nem sempre é a melhor opção; dá pra dormir e deixar para a manhã seguinte, quando todo mundo estiver mais inteiro. As mulheres experimentam também um amadurecimento, embora um tanto diferente. Por questões culturais, é comum que demorem mais tempo a explorar o próprio corpo, descobrir do que gostam, e como. Assim é que a

maioria das minhas amigas relatam estar cada vez mais, e não menos, sexuais. Os sexólogos confirmam essa teoria e afirmam que, em geral, uma mulher aos 40 está no ápice de sua vida sexual.

Em um artigo ao site de notícias Huffington Post, a colunista Vikki Claflin comenta 12 razões por que o sexo é melhor depois dos 50, como a liberdade e confiança para fazer as coisas do jeito que você quer. “Se você pensa nos seus 20, 30 anos, revive histórias épicas da faculdade, lembranças românticas de seu casamento e causos infindáveis sobre criar seus filhos maravilhosos; mas, provavelmente, também vai se lembrar de inseguranças, problemas financeiros, bebês, meses de privação de sono, ansiedades profissionais (você gostaria de ter 25 anos de novo, sinceramente?), nenhum dos quais é um bom requisito para uma uma vida sexual sem restrições, apesar do entusiasmo e da boa vontade da juventude”, escreve a colunista. “Quando chegamos aos 50, os filhos estão crescidos e já saíram de casa, as carreiras estão estabelecidas, as finanças estão estáveis e a vida não é uma luta constante. Estamos mais relaxados a respeito de tudo, e o sexo é, com frequência, mais divertido”, afirma.

Parece claro que não é preciso chegar aos 50 para viver esse vidão. Trata-se, talvez, de deixar de tentar provar alguma coisa, sem ter que parecer incrível e exuberante para os outros, reais e imaginários. No fim das contas, certos mesmo estavam os pagodeiros do Grupo Revelação, que já em 2001 vaticinavam, no melhor estilo anos 90, “deixa acontecer naturalmente”.