João Carlos Martins volta aos palcos; leia entrevista exclusiva à PLAYBOY

Preocupações, traumas e síndromes estiveram presentes ao longo da carreira do maestro João Carlos Martins. No passado, problemas nas mãos o afastou dos palcos em três ocasiões, mas a música e a força de superação sempre foram maiores do que os acidentes e cirurgias pelas quais ele passou.

Depois de receber alta do hospital no último sábado, onde foi internado com embolia pulmonar, o maestro que encantou o Brasil e o mundo estará de volta aos palcos mais uma vez.  O músico de 76 anos se apresenta ao lado do pianista Arthur Moreira Lima nesta quinta-feira, dia 2, no Citibank Hall, às 21h. O concerto Quintas Clássicas tem como propósito divulgar e democratizar a música clássica. O repertório conta com músicos renomados como Bach, Chopin Mozart e Tom Jobim. No dia 16, o maestro apresenta a Bachiana Filarmônica ao lado da bateria da Vai-Vai.

A PLAYBOY contou um pouco da história de vida do maestro no Entrevistão da edição 492. Leia um pequeno trecho da entrevista feita por Victor Ferreira.

ENTREVISTAO JOAO CARLOS MARTINS 2

Foto: Hick Duarte

O senhor já era torcedor da Portuguesa?
Torcedor, sempre. Fui bater bola com o pessoal, tinha um time de futebol em Nova York, só de latinos. Nós jogávamos todo sábado, eram equatorianos, peruanos, bolivianos… O único brasileiro era eu. Acabou o treino da Portuguesa e começou o nosso jogo, eu estava com a chuteira do Jair Marinho [jogador da Lusa]. Numa queda, uma pedra pontiaguda lesou meu nervo ulnar, e dois meses depois eu já não tinha sensibilidade nestes três dedos da mão direita. [Mostra os dedos médio, anelar e mindinho.] Isso aliado à minha distonia, que eu já tinha desde os 18 anos de idade. Comecei a rodar médicos, médicos e mais médicos. O maior neurocirugião do mundo na época, Joseph Ransohoff, fez uma transposição do nervo, eu comecei uma fisioterapia e coloquei dedeiras de aço. Três dedeiras de aço. Um ano depois da queda eu estava voltando a tocar com essas dedeiras de aço.

E como era tocar com as dedeiras?
Dei muitos concertos, em alguns deles saía sangue. Isso está no filme, aparece até o sangue. Até que, depois de um concerto no Lincoln Center, a crítica foi negativa. E eu falei: “Está na hora de parar”. Tinha 30 anos. Telefonei para o meu empresário e disse que era hora de parar. Música tem que ser feita com perfeccionismo e emoção. Emoção eu tinha, perfeccionismo, não mais. Pensei em me suicidar, cheguei a entrar numa banheira com gilete e tudo… Aí tocou o telefone. Saí da banheira e fui atender, era meu professor de piano. Esse telefonema me salvou.

O assalto na Bulgária deixou sequelas?
Eu fiz operações e fisioterapia, conseguia dormir, tocar, mas a cada palavra que eu falava, tinha espasmos. Aí já era um LER… O espasmo era como uma faca entrando na minha mão. Acho que dá para ver, eu ponho a mão aqui, o espasmo vai ser aqui, olha… [Põe a mão na mesa.] Os mesmos médicos do Superman, o Christopher Reeve [que ficou tetraplégico depois de um acidente a cavalo], decidiram que, cortando o nervo, o espasmo continuaria, mas a dor violenta não chegaria ao cérebro. Eles disseram: “Você vai perder a mão direita, mas vai ter qualidade de vida”. Eu não aguentava a dor, eu falava com você e dava espasmo.

Em silêncio não doía?
Não. Fiquei dois anos recolhido na minha casa nos Estados Unidos, só saía para ir à Bulgária continuar a gravação da obra completa de Bach. Não falava com ninguém, ficava num quarto estudando. Aí acabei a obra de Bach e fui dar um concerto em Londres. A dor era tão grande que, 15 minutos antes de entrar no palco, telefonei para os médicos e disse: “Pode cortar o nervo, é o último concerto da minha vida”. Dei um concerto de arrepiar, mas no segundo movimento eu chorava, já tinha tomado a decisão. Acabou o concerto, o teatro inteiro de pé, beijei o piano e saí. Tomei o avião e fiz a operação. Cortaram o nervo aqui. [Mostra uma cicatriz no pulso.] No dia seguinte, não acreditava que eu podia falar sem sentir dor. Aí comecei a carreira com a mão esquerda, mas estudei tanto, 10, 12 horas por dia, que a distonia foi para o lado esquerdo e a mão esquerda foi definhando aos poucos, foi fechando. Fiz turnê na Ásia, na Europa, sempre em grande forma… Mas quando percebi que não dava mais, aí eu disse: “Agora acabou”.

Como foi a transição do piano para a regência?
Fiz duas operações na mão esquerda, mas não deram certo. Eu fiz 22 operações ao longo da vida, nas mãos, nas costas e no ombro. Tudo em função do piano. Aí falei: “O que vou fazer da vida? Qual emprego vou arrumar aos 65 anos?” Pensei durante uns dez dias, mas dessa vez não pensei em suicídio como quando tinha 20 e poucos anos. Eu tive um sonho com Eleazar de Carvalho [maestro, 1912-1996], e ele falou: “João, vai estudar regência”. Eu não tinha mais idade para fazer um curso de nove anos de regência, então tomei umas quatro aulas com o maestro Júlio Medaglia, em 2003. Aí reuni 18 músicos aqui em casa e comecei a aprender regência para ter a primeira orquestra da iniciativa privada [a Orquestra Bachiana Filarmônica Sesi-SP].