O nude artístico nas fotos de Alle Manzano

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  • Bruno Macedo

A fotografia sensual é um tipo de arte que já ganhou várias conotações dentro dos mais variados contextos da sociedade. Se no passado as fotos eram exclusividade do meio físico como revistas e outros, hoje, a internet cria inúmeras possibilidades. Novas interpretações e novas abordagens sem qualquer tipo de padrão. Afinal, na rede, não é preciso seguir regras. Quem define o resultado é apenas o fotógrafo e o fotografado. 

No entanto, as redes sociais nem sempre traduzem a liberdade do ambiente em que surgiram. A fotógrafa Alle Manzano que o diga. Suas fotos, quase sempre recheadas de nu e intimidade, fizeram com que ela fosse bloqueada 19 vezes e perdesse 4 contas no Facebook. No Instagram, foram 3 contas.

Isso não a intimida. “Vai ser só mais um bloqueio”, disse a fotógrafa em tom descontraindo depois de questionada sobre um possível novo bloqueio por conta desta entrevista. Ainda bem! Sua obra tenta transpor a barreira que a palavra nu ainda tem no Brasil. “O que eu entendo é que no Brasil a arte não é vista como arte. O nu, por exemplo, não é visto como nu artístico, mas sim como pornografia”, afirma.

Seu mais recente trabalho Amam-se é um bom exemplo. As obras, que estiveram em exposição na Art Lab Gallery, em São Paulo, no final de 2016, retratam o amor verdadeiro e a intimidade que existe entre os casais. Acompanhadas sempre por poesias de Fábio Chap, as fotos dizem muito da carreira da paulista que se transformou em uma referência na fotografia de nudez feminina.

Na conversa com a PLAYBOY, que você confere abaixo, Alle falou sobre o conceito por trás das fotos, a carreira e seus projetos. A seleção de fotos, em exclusividade para o site, é forte e intenso. Insegurança, medo, culpas e preconceitos ficaram para trás nos registros dos casais que fizeram parte da série Amam-se.

Alle Manzano (1)

 

Quando você começou a fotografar?
Na verdade, eu sempre gostei da fotografia. Nunca tive interesse em ter outra profissão. Decidi que queria ser fotografa de verdade quando vi pela primeira vez, aos 14 anos de idade, a imagem do Salvador Dali “a caveira de Dali” onde existe a exposição de corpos nus em forma de caveira. Logo quando eu comecei a fotografar eu já montava exposições. A minha primeira foi em 2003. No início da carreira eu trabalhava com Djs como Vivi Seixas, Renato Cohen, Eli Iwasa, Mau Mau entre outros.

Como foi montar a primeira exposição?
As primeiras exposições não tinham nome, elas tinham temas. Eu fiz duas exposições só com Djs e uma delas foi sobre os 7 pecados capitais que foi exposta em algumas casas noturnas de São Paulo. Depois eu fiz uma só com mulheres, explorando mais o lado feminino, mais sensual do que o nude em si. Não apresentei em galeria, mas em casas noturnas. Um tempo depois eu passei a fazer as exposições mais voltadas para o nude.

Quais fotógrafos você tem como referência?
Sou obcecada pelos trabalhos da Diane Arbus, Francesca Woodman, Irving Penn, Hemult Newton e Terry Richardson. Mesmo sabendo que nunca farei um trabalho com tanta qualidade, esses artistas me inspiram para que meus projetos saiam.

Como surgiu o interesse pelo retrato feminino?
Eu sempre notei que tinha mais interesse pelo feminino. Por mais que eu fotografasse Djs homens, eu queria um lance mais feminino. Quando eu fotografava uma Dj mulher, por exemplo, eu sentia que tinha mais desenvoltura e sabia dirigir melhor. Apesar disso, eu nunca consegui seguir um padrão de moda ou tendência, eu queria algo mais sensual da coisa. Isso até que um dia eu fotografei uma Dj ela topou fazer uma coisa diferente. Depois desse ensaio eu percebi que era isso o que eu queria fazer e fui despindo cada vez mais.

Como você vê a relação entre o erótico e o sensual nas fotos?
Eu vejo com naturalidade, porém existe um conflito de leitura de imagem grande na cabeça das pessoas. O sensual está longe de ser erótico, as pessoas confundem e recriminam sem conhecimento. Eu acho que tem para todos os gostos, depende da procura. Se eu quiser o pornô, eu vejo. Se quiser ver o nude faço o mesmo. Na exposição Amam-se, por exemplo, eu usei o erótico muito mais do que nos outros trabalhos. Foi um desafio e por isso eu me identifiquei bastante com ele.

Os sentimentos retratados nas suas fotos são intensos, como por exemplo a paixão, excitação e confiança no sexo entre os casais. Existe uma preocupação de transmitir esses sentimos nas fotos?
Eu não penso se vai chocar, se vai ser um problema ou se está dentro dos padrões da sociedade. O que fiz no projeto Amam-se foi real. Me preocupei apenas em retratar a real situação onde o casal se entregou e se excitou de verdade. Foram registros intensos, inclusive, deixei de usar algumas fotos em que alguns casais não tinham afinidade. O que eu quis mostrar eu consegui, mesmo que alguns chamem de pornografia ou não. Aliás, vocês chamam de pornô o que fazem entre 4 paredes com seu parceiro?

Você acha que existe um movimento estilístico mais marcante na atualidade? Uma nova forma de registrar a nudez de forma mais intensa.
O nu é algo que todo mundo quer e gosta de ver. Não adianta falar que não. O lado sensual de uma mulher, de um homem ou de um casal é gostoso, e deveria ser visto com mais naturalidade.

Como você constrói os cenários e os enquadramentos para os ensaios?
Eu tenho uma preocupação grande com o enquadramento, já o cenário não me preocupa. Essa preocupação com uma locação incrível não faz parte dos meus ensaios.

E você se preocupa com a pose ou até mesmo em produzir uma situação?
Eu prefiro uma coisa mais espontânea, tanto que faço os meus ensaios conversando. Prefiro trocar uma ideia antes e saber o que a modelo está disposta a fazer do que impor algo. O ângulo é a minha única preocupação, pois posso vulgarizar a foto e a modelo.

Você já teve algumas contas no Facebook e Instagram bloqueadas por conteúdo erótico. Como você vê essa “disputa”?
Ao mesmo tempo que a sociedade cada vez mais consume o nu e também o erótico, a internet bloqueia esse tipo de fotos. O menor de idade não pode ter acesso a uma rede social, o Facebook, por exemplo, só permite que maiores de 18 anos criem uma conta. Eu não consigo entender o que as crianças fazem ali. Você entra no Facebook e vê estupro, violência, maldade com animais, e afins. O que eu entendo é que no Brasil a arte não é vista como arte. O nu, por exemplo, não é visto como nu artístico, mas sim como pornografia. É essa a nomenclatura que dão para uma arte no Brasil. Sofro esses bloqueios por ignorância da sociedade, mas fazer o que se fomos “educados” assim?

Uma marca de autoria bem forte nos seus ensaios é a maneira que você trata a poesia. Ela já faz parte da sua vida?
Por amar a poesia e ser uma das coisas que mais gosto de ler, notei que a poesia junto com a fotografia suaviza a imagem. Eu posso colocar uma mulher completamente nua e se eu fizer uma poesia daquela imagem, parece que as pessoas conseguem digerir melhor. O corpo é poesia. Na exposição Lendo-me, eu falava sobre masturbação feminina – o que falam que não é um tabu, mas eu acho que é – e tive a ideia de chamar o escritor Fábio Chap para fazer os textos da exposição. Deu muito certo. Conseguimos falar de masturbação feminina de uma forma mais sensível e a partir desse momento eu comecei a trabalhar com fotos e poemas.

Você já fez outras exposições como a Toque-me, em 2015, que retratou 15 mulheres com 15 instrumentos musicais diferentes. Como são esses projetos e o processo de criação?
Faço o anúncio via Facebook para captar modelos e depois converso com todas elas via inbox. Cada ano eu falo que engravido de um projeto e ele nasce após 09 meses. Eu começo a trabalhar desde março para ficar pronto em novembro ou dezembro. Mas esse tempo é bem complicado porque não surgem 15 telas do nada. É muito difícil captar a modelo que incorpora o projeto apresentado. No caso da Toque-me, por exemplo, as fotos têm sensualidade, e cada mulher com um instrumento musical diferente.  Relatei que toda mulher, por mais que ela queira sair e se divertir com os caras, ela sempre deseja um toque para ela que se encaixa nela. Não adianta querer te tocar como uma guitarra se você gosta do toque de um violão.  Conheci muitas mulheres insatisfeitas com o lance da entrega ao parceiro. Na exposição, foram 15 mulheres com 15 instrumentos musicais.  

E como foi produzir a exposição Amam-se?
Eu fiquei muito feliz e satisfeita com o projeto. Foi um projeto que me trouxe uma evolução profissional muito grande, principalmente por ser com casais com forte conexão. Para o ensaio ser mais tranquilo, eu fiz as fotos no ambiente deles, onde estão acostumados e convivem diariamente. Quando você está dentro da sua casa, você fica mais seguro e mais a vontade.

Você falou um pouco sobre essa questão de encerrar um projeto. É difícil pôr fim nele?
Se fosse fácil trabalhar com exposições fotográficas no Brasil, eu ficaria com elas o ano todo, mesmo tendo que montar outros projetos. É muito difícil, principalmente porque você pega amor pelo trabalho. O projeto acaba, mas ele não sai de você.

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