Parabéns pro craque: Neymar faz aniversário e a PLAYBOY libera o entrevistão dele para você

Por Mauro Beting

Juninho apostou com o pai: se conquistasse a Liga dos Campeões de 2015 pelo Barcelona, ganharia uma Ferrari vermelha na garagem. Não só levou o título em maio do ano passado como foi um dos artilheiros. Eles apostam desde 7 de março de 2009, quando Neymar Jr. estreou pelo Santos com 17 anos e um mês. “Meu filho tem de ser melhor do que eu”, diz Neymar da Silva Santos, o Neymar pai. A aposta tem dado certo. Neymar Jr. foi muito além do ponta-direita de passagem discreta por muitos clubes nos anos 1980 e 1990. O nome Neymar marcou mais em Mogi das Cruzes. Jogava no União, em 1992, quando a mulher Nadine deu à luz um menino sem nome por uma semana. Ela queria Mateus. O pai hesitou até chegar ao cartório. Resolveu perpetuar seu nome: Neymar Jr. – o “N” do trio MSN do Barcelona desde 2014 (Messi, Suárez e Neymar Jr.). Trio que poderia ser MSM(de Mateus) se Nadine tivesse vencido a questão do nome da pessoa física que criou um império de várias pessoas jurídicas (discutidas na Justiça do Brasil e da Espanha). Personalidade de talento indiscutível. Popstar com carisma que tem química em vários campos e que supera problemas das pessoas físicas e jurídicas que ele, o pai e o staff têm driblado em estafantes querelas contra quizilentos ex-parceiros e o ex-clube do coração da família – o Santos F. C. 

 Neymar Jr. cresceu nas areias de Praia Grande (litoral paulista) e nas quadras de futsal da Baixada Santista sonhando com dribles e gols pelo Barcelona. Mas o empresário Wagner Ribeiro queria negócio com o time de Zidane, Roberto Carlos e outras feras madridistas (entre elas Robinho). Neymar pai também queria o Real Madrid, clube que o prodígio havia recusado aos 14 anos. Pesou a felicidade do filho, que queria mesmo o Barcelona… O acordo só saiu em 2013. Começou com um empréstimo ou adiantamento de 10 milhões de euros, em 2011, para as empresas geridas pelo pai. Mais uma multa de 40 milhões caso não desse certo o negócio. O contrato anunciado em 2013 foi no valor total de 57 milhões. Em um ano se descobriu que, de fato, o Barcelona havia pagado 86 milhões. Contas abertas que levaram à deposição do presidente do clube – rolo que hoje se calcula ter levantado a bolada de 111 milhões de euros. E poderia ser mais caro. O Real Madrid cobriria os 50 milhões iniciais do Barcelona. E pagaria ainda mais. Coisa de 150 milhões de euros pelo pacote todo, em 2013. Nessa história, se Neymar Jr. tivesse ouvido o pai e os empresários, que queriam vê-lo no Real Madrid, teria ganhado muito mais. Mas o menino, então com 21 anos, quis o Barcelona, onde só não é rei pelo poder do imperador de outras galáxias Lionel Messi. Leo e Ney não são dupla caipira, mas também têm primeira e segunda voz. Eles se ajeitaram em campo e no estrelato, e se dão muito bem em todas as áreas. Só não são tão amigos quanto os Tois, que não estão à toa na casa do amigo de infância. Ajudam no dia a dia de Neymar Jr. – trabalham no escritó- rio da família em Barcelona, a menos de dez minutos a pé do estádio Camp Nou. São tão íntimos e tantos (oito) que obrigaram Neymar pai a comprar mais um avião. Um que consegue sair de Barcelona e pousar em São Paulo. O pai e a assessoria de Neymar Jr. marcam o menino – que não sabe quanto tem no bolso e no banco – melhor que quaisquer rivais. Neymar pai gostaria que o filho encerrasse a carreira no Brasil. Não mais no Santos do coração dele e do avô, pelos problemas desde a negociação com o Barcelona. Gostaria de ver o filho pendurando as chuteiras da Nike no Flamengo, no Rio. Para, então, quem sabe, o craque virar político. “Para fazer mais coisas pelo país.” Não só no Instituto Neymar Jr., que há um ano dá assistência médica, aula e entretenimento para mais de 4 mil pessoas em Praia Grande, a duas ruas da casinha onde moravam. Projeto que tem vários parceiros. Um que despeja 2 milhões de reais por ano, contrato até 2022: a Fundação Barcelona… Tem como deixar o clube e a cidade que o acolheram em 2013? Difícil. Mesmo com o real interesse do Madrid, de Manchester (tanto o City, que será dirigido por Pep Guardiola, quanto o United, que já fez proposta em 2015), do Paris Saint-Germain. Ele pode jogar onde quiser. Tem clube disposto a pagar os 190 milhões de cláusula rescisó- ria, ou esperar o fim do contrato em julho de 2018. Tem muita história ainda. Neymar Jr. abriu o jogo para PLAYBOY na véspera de mais uma avalanche de denúncias contra o pai, ele, o Barcelona e o Santos, desta vez do Ministério Público Federal do Brasil. Um dia depois de ser o melhor em campo pela Copa do Rei da Espanha. Depois de bombardeado, Neymar Jr. respondeu a PLAYBOY semanas depois: “Pelo que ouvi do meu pai, tudo foi feito dentro da lei. Espero que isso acabe o mais rápido possível e que a justiça prevaleça. Mas o mais importante é que as pessoas respeitem a mim e à minha família. Tem muita mentira e distorção de informações. Isso magoa. O assunto merece seriedade, conhecimento de causa e, principalmente, isenção. Por isso, peço respeito”. Para esta entrevista, PLAYBOY escalou o colunista Mauro Beting, que viajou para Barcelona e ficou cara a cara com o jogador no Centro de Treinamentos do clube. A conversa franca foi complementada por conversas pelo WhatsApp. O Juninho de Mogi das Cruzes falou o que quis. Bem treinado pela assessoria. Bem condicionado por Ricardo Rosa, preparador físico que trabalhou com ele no Santos e, agora, o instrui na academia que fica no primeiro dos tantos andares da casa em Barcelona, onde ele treina cada vez mais para ser o que Messi ainda não deixou. Mas que em breve será. No Barcelona ou não, Neymar Jr. será o melhor do mundo. O número 1. O primeiro entrevistado da nova PLAYBOY.  

O seu lema, até na sua nova linha de chuteiras, é “Ousadia e Alegria”. Qual a sua maior ousadia? É difícil dizer… [Pensa bastante.] E falo que sou um cara ousado… [Continua pensativo.] Acho que é a ousadia de ter personalidade para jogar futebol, que não é uma coisa fácil.  

E a maior alegria? Acho que foi ter o meu filho. [Davi Lucca, 4 anos.] Essa foi a maior alegria que tive. Você sonhava que seria tudo isso que já é e que você ainda pode ser? Não sonhava. Sonhava com coisas grandes, mas não que me tornaria o que me tornei. Para mim é uma grande felicidade ver que todo o esforço que fiz lá atrás tem valido a pena. 

Quando você percebeu que era diferente dos outros jogadores? Desde que você jogava lá na casinha em Praia Grande? Para falar a verdade, é difícil falar sobre eu ser diferente. Até não gosto muito. Gosto sempre de estar quietinho, na minha. Mas sempre busquei fazer algo diferente dentro de campo. Me dedicava ao máximo para fazer aquilo se tornar diferente. Para ajudar a mim e ao meu time. E é verdade, eu treinava mesmo em casa desde moleque. Muito. Treinava brincando. Colocava garrafas de 2 litros de refrigerante como marcadores e ficava driblando no quintal. E quando estava chovendo, ficava dentro de casa e colocava cadeira, mesa e sofá como adversários. Suas primas dizem que até elas viravam as traves às vezes. Eu queria fazer tudo igualzinho a um jogo de verdade. Até simulava falta e o caramba. 

 Então já caía naquela época? Já caía naquela época. [Admite aos risos.] E quando eu ia para o jogo, isso tudo me ajudava pelo reflexo de saber como driblaria e tudo mais. Brincava de jogar bola o tempo todo. Dormia com a bola. Tudo que eu fazia e queria fazer era jogar futebol. Dava para ir bem na escola? Não era fá- cil. Eu treinava futebol de campo de manhã, estudava à tarde, treinava à noite no salão e voltava tarde para casa, sempre com meu pai. Era muito cansativo.  

Como foi estrear com apenas 17 anos e já tão badalado? Meu pai dizia que até aquele jogo [em 7 de março de 2009, contra o Oeste de Itapólis, no Pacaembu], eu era filho dele. Depois, ele passou a ser o meu pai. Foi uma pressão grande. Toda a imprensa esperando. Mas eu já estava preparado. Desde o sub-13 do Santos, tinha gente que encostava no alambrado e já pedia para tirar foto. Já estava meio acostumado com isso. Mas foi inesquecível, claro. Na primeira bola eu já chutei na trave. No terceiro jogo, fiz o primeiro gol, também no Pacaembu. Desde a base eu era camisa 7, como a do Robinho. Mas, depois, passei a usar a 11.  

Número que hoje faz parte até da logomarca de seu instituto… Em algum momento você se arrependeu de há dez anos não ter ido para o Real Madrid? Não. Até hoje, graças a Deus, não me arrependo de nada. Das decisões que tomei e das coisas que fiz. Sendo elas ruins ou boas. As ruins foram para aprender e crescer. E as boas, por ter escolhido o lado certo, também.  

Qual foi a pior entre as ruins? Me arrependo de ter brigado com a comissão técnica do Dorival Júnior, naquele momento no Santos [em 2010, depois de discutir com o treinador e os companheiros por ter batido e perdido um pênalti em jogo do Brasileirão, Neymar e o auxiliar técnico Ivan Izzo discutiram feio no vestiário da Vila Belmiro. Dias depois, toda a comissão técnica foi demitida]. Meu objetivo era fazer algo pela equipe, bater o pênalti e marcar o gol para ajudar os meus companheiros. Porém, em seguida, a minha atitude não foi correta. Mas foi algo que me ajudou e me fez crescer. Foi uma semana intensa, porque tive que escutar de tudo após o jogo. Tive que desligar o telefone. Eu recebia ligações anônimas me xingando, falando que iam me bater, que iam me pegar. Fora televisão, jornal, todo mundo falando mal de você. Então, é complicado. E nem foi por mim, porque eu sabia que poderia aguentar. Mas minha família foi muito afetada. Acho que foi uma coisa que me fez amadurecer e pensar mais sobre qualquer atitude que eu fosse tomar depois.  

Você quase foi para o Real Madrid em 2006. Quase foi em 2013, quando veio para o Barcelona. E agora, com uma possível proposta de dobrar o salário, você vai? [Dá uma risada nervosa.] A gente não sabe o dia de amanhã. O Real Madrid é um grande clube. Mas até agora eu não sei de nada. Estou muito feliz no Barcelona, com aquilo que venho fazendo, com os meus companheiros. Seu pai queria que você fosse para o Real Madrid em vez de para o Barcelona. Acabou pesando a sua vontade. E agora? Sempre pesa minha vontade. Eu sou o cara que toma as decisões finais. Desde quando saí do Santos e vim para o Barcelona, tinha os dois clubes para escolher, e acabei decidindo jogar aqui. Não me arrependo da decisão que tomei. Muito pelo contrário. Estou muito feliz de estar no Barcelona. Espero que possa durar um pouco mais.  

Dá para sair do Barcelona, da vida que você tem, dos jogadores que tem ao seu lado? É difícil. Acho que quando os caras falam “ah, vamos mudar de equipe”… Mas, então, de onde é a proposta? Aí você começa a pensar na cidade [Barcelona], no clube, no ambiente que tem aqui, nos jogadores…. É muito difícil sair.  

Você ficou triste pela maneira como acabou sendo a sua saída do Santos, todas as polêmicas, as discussões legais, tudo que se fala no clube e se cobra na Justiça? Não me arrependo do que aconteceu. Fico triste pelo que o Santos vem fazendo com a gente. É uma coisa muito triste e ruim, porque é o clube no qual eu fui criado e, praticamente, dei minha vida ali. E você tomar esse golpe, esse cruzado, é bem complicado. Sabemos que ajudamos muito o Santos, e, infelizmente, ele não está nos ajudando agora. Mas fazer o quê? Cada cabeça, uma sentença. E o homem lá de cima faz tudo certinho. Você voltaria um dia para jogar no Santos? Deixei uma mensagem no meu armário quando saí de lá: “Estou indo, mas eu volto”. Mas, hoje, com a diretoria que tem lá, não tenho a mínima vontade de voltar.  

Onde e quando você pensa em encerrar sua carreira? Isso é algo em que é difícil pensar. Ainda não refleti sobre parar de jogar. Gostaria de voltar ao Brasil. Quem sabe jogar nos Estados Unidos no fim da carreira… Mas não penso nisso agora.  

Mas, até lá, você vai ganhar o quê? Espero que ganhe tudo. Vou fazer o máximo para ganhar todos os campeonatos possí- veis. Uma Copa do Mundo é o meu maior objetivo. Sempre foi. Eu sonho com isso. E a Olimpíada no Rio. São coisas que almejo, e tenho muita vontade de vencer.  

Mas e os prêmios individuais? É o sonho de qualquer jogador vencer a Bola de Ouro da Fifa. Fiquei bem pertinho dela agora e fico muito orgulhoso pelo meu trabalho, por ter estado entre os três melhores do mundo, pelas pessoas que trabalham comigo e estão sempre me ajudando e apoiando. Espero que um dia eu possa conseguir uma redondinha de ouro daquela.  

Quando você vai ganhar? Quando eu não sei. Espero continuar meu trabalho, vencendo os campeonatos com o meu clube. O reconhecimento vem naturalmente para as mãos de quem merece. É mais fácil ganhar ao lado do Messi ou contra o Messi? Tem muita gente que acha que você teria mais chance de ser o Bola de Ouro da Fifa jogando em outro clube. Acho que jogar contra ele é bem difícil. Jogar ao lado do melhor do mundo é sempre muito bom. As coisas ficam fáceis. E se tiver que ganhar, que ganhe ao lado do Messi. Seria bom. 

Quando saiu o anúncio oficial da sua negociação para o Barcelona, em 2013, ele foi um dos primeiros a te felicitar, e mandou um recado por celular. Como foi o primeiro contato do Messi como seu colega de time? Foi quando fui a um jogo dele. Amigos do Messi contra Amigos, acho, do Mundo. E teve um contato rápido ali, porque tinha muita gente em volta. Me deu os parabéns pela transferência. Falamos pouco. Logo quando eu cheguei aqui, ele me tratou super bem, desde o começo. Foi um cara que me ajudou muito. 

Vocês dois e o Suárez costumam se falar por WhatsApp? Tem algum grupo no aplicativo? A gente costuma, sim. Um sempre brinca com o outro. O Messi, o Suárez e eu. A gente sempre fica fazendo palhaçada.  

O grupo tem nome? MSN? Não tem. [Dá risada, sem abrir o jogo.] 

E nesse grupo é só sacanagem ou vocês também falam sério, do time, dos jogos, do campeonato? Não. Durante a partida, a gente fica sério. 

Mas só durante o jogo? Nem antes, assim, “vamos em cima do lateral-direito, tem que tocar ainda mais a bola…”? Não. Antes dos jogos nós estamos “relaxadões”. Até dentro da partida, a gente, de vez em quando, dá umas risadas.  

Basicamente, vocês vão lá e jogam. Não importa o adversário, nem o tipo de campeonato. A gente vai lá para ser feliz. Gostamos de jogar futebol e de sermos felizes ali dentro. Ganhar, fazer gol…  

Messi começou como ponta-direita. Quando chegou o Suárez, em 2014, imaginou-se que o Messi teria que sair um pouco da área, porque o uruguaio é o típico centroavante, um atacante mais fixo. Foi o que aconteceu. A entrada de Suárez mudou alguma coisa para você, claro, mas não mexeu tanto com a sua posição. Messi é que teve de se adaptar mais. Como ele fez para encaixar taticamente o Suárez no time? O Messi voltou para a posição em que atuava antigamente. Ele joga muito em qualquer posição. O Suárez se encaixou rapidamente no estilo de jogo do nosso time. Acho que a vinda dele foi praticamente perfeita. E nós três nos encaixamos de uma maneira que foi fantástica. A gente conseguia se entender sem ter jogado muito tempo junto, e agora a gente se entende ainda mais. Acho que faltava a cereja do bolo, que foi o Suárez.  

Cereja meio gordinha, né? Por que você chama ele de gordo? [Gargalhando.] Nem é questão de ser gordo. Ele é muito forte. E como é mais forte que o Messi e eu, chamamos ele de gordinho. [Risos.]  

Na história do futebol mundial tivemos grandes duplas como Pelé e Coutinho, no Santos. Mas um trio como vocês no Barcelona ou o BBC rival de agora, com Bale, Benzema e Cristiano Ronaldo, no Real Madrid, é raríssimo. Como é fazer parte desse momento? É difícil falar da gente mesmo, mas vou falar de mim. Fico muito feliz de fazer parte desse trio e dessa história. Para mim é uma grande honra. Aí fica fácil de jogar ao lado desses dois craques. 

FOTOS JAVI ECHEVARRÍA

 

Um uruguaio, um brasileiro e um argentino. Tem rivalidade? Vocês se sacaneiam? Isso é uma coisa engraçada, pois são três rivais que se dão muito bem no clube. São amigos. E é uma coisa meio impossível de imaginar que aconteceria. Mas aconteceu e as coisas vêm dando certo para a gente. Claro que brincamos um com o outro, quando alguém vai para sua seleção, mas a gente se dá super bem.  

Você torceu para quem na final da Copa de 2014 entre Alemanha e Argentina, no Maracanã? Eu torci pela Argentina. É onde tenho amigos. E sempre torço pelos meus amigos, independentemente da nacionalidade e da rivalidade. A vida não é só rivalidade, e sim fazer amigos. Quanto mais amigos você tem, mais feliz você é. Fiquei muito feliz de o Messi ter chegado à final. Fiquei triste porque perderam, mas faz parte do futebol.  

Faz parte, mas, ao mesmo tempo, você sabe o que o torcedor brasileiro pensou… “Imagina outro Maracanazo, a Argentina ganhando dos caras que meteram 7 a 1 na gente…” Em nenhum momento você imaginou que o brasileiro te cobraria por torcer para um argentino numa final no Brasil? Sempre falo as coisas que vêm do meu coração, independentemente do que pode acontecer. As coisas que vêm pelo coração eu falo. 

 O Messi é muito cobrado pelo torcedor argentino. Ele não ganhou a Copa, que o Maradona conquistou em 1986, no México, mas isso não justifica. Muitos acham que ele não valoriza a camisa do país. No Brasil, há muito tempo o papo é o mesmo com os jogadores que atuam fora do país. Como você encara a crítica de “o Neymar é do Barcelona, não é do Brasil”? Cada um demonstra o sentimento que tem. É diferente. Não é porque um jogador não esboça uma reação que todos possam ver que ele não é apaixonado pela seleção. Um cara quieto pode ser muito mais apaixonado do que um cara que demonstra um sentimento gigantesco ali. Pode ser até uma reação mais falsa do que outra. Então, não podemos julgar isso. O cara está ali e defende a seleção brasileira. E tenho certeza de que quando defendemos nossas seleções, a gente faz isso como se defendesse a nossa vida. A seleção brasileira sempre foi o meu sonho, e hoje visto a camisa 10. Quando vou jogar por ela, dou de tudo. É ali que sempre quis estar.  

Quanto ficaria o jogo da semifinal da Copa de 2014, no Mineirão, contra a Alemanha, se você estivesse em campo? Não sei se seria diferente. É difícil falar isso, é complicado. Deus quis que fosse assim, que eu estivesse fora. [Ele se lesionou nas quartas de final contra a Colômbia e não atuou mais no Mundial]. Eu só pude ser um torcedor a mais. Infelizmente, perdemos de forma única e que ninguém imaginaria. Os jogadores que estavam ali não entendem, não sabem o que aconteceu. Então, nós, que estávamos aqui fora, não temos nem o que falar. 

Como e onde você viu os 7 a 1 para a Alemanha? Vi em casa, com minha família e meus amigos. Não acreditava no que estava acontecendo. No intervalo [Brasil já perdia por 5 a 0], fui para o meu quarto orar, para que as coisas pudessem melhorar, clarear para a nossa equipe. Infelizmente, não melhoraram. Quando terminou a partida, voltei para o meu quarto e chorei que nem criança. Chorei por muitos motivos. Por estar machucado, por não estar junto com os meus companheiros. Minha vontade era estar ali com eles, e não apenas ganhar uma medalha de ouro, ser campeão mundial. Foram coisas que passaram pela minha cabeça, e não pude controlar o choro.  

Desde a Copa das Confederações, em 2013, a execução do Hino Nacional foi emocionante nos jogos no Brasil. Antes de a bola rolar naquele jogo em Minas, no momento do hino, o David Luiz e o Jú- lio Cesar levantaram a camisa com o seu nome. Qual foi a sua sensação? De arrepio. Você falando agora, até me arrepio de novo. Ao mesmo tempo, foi uma sensação de tristeza, porque foi legal fazerem essa homenagem, mas quando apareceu ali, comigo fora de campo, foi uma coisa triste, porque essas homenagens são mais por tristeza do que por alegria. Fizeram aquilo ali pois eu estava passando por um momento difícil. Então, é uma mistura de sentimentos. Boa, feliz, por lembrarem de mim e fazerem essa homenagem, e triste por ver minha camisa ali e não estar com eles numa semifinal de Copa do Mundo jogada no meu país.  

Muita gente criticou o zagueiro e o goleiro do Brasil: “Pô, vocês só pensavam no Neymar, choraram pela ausência dele antes do jogo”. Nas oitavas de final, Thiago Silva chorou antes da decisão nos pênaltis. Ficou aquela coisa de “time chorão”… Isso não te irrita? Não é questão de irritar. É que falam demais. Foi o que eu disse antes: cada um demonstra o sentimento de alguma forma… Eu também chorei depois dos pênaltis contra o Chile. A gente não chora por medo ou por sermos chorões. Enfim, se somos chorões, que sejamos. Também não me importa. O que importa para mim é o meu sentimento ali. Sempre sonhei em jogar uma Copa do Mundo, ainda mais no meu país. A gente estava prestes a sair da Copa, era apenas o quarto jogo, contra o Chile. E, quando ganhamos, acho que foi um choro de alegria, um choro de “caramba, conseguimos passar por mais uma luta”. O problema é que todo mundo só vê o lado do jogador que a TV passa. Ninguém vê a luta diária. Eu fico triste. As pessoas não sabem praticamente nada sobre nossa vida, e falam muito.  

Não é muito peso para um moleque de 24 anos ser o capitão da seleção, o camisa 10, o herdeiro de um “extraterrestre” como Pelé? Não é muita carga não ter um grande parceiro para dividir a responsabilidade? O Brasil do Neymar e mais quem? Nunca existiu na histó– ria da seleção brasileira uma situação como essa: o craque do time tão jovem sem outro mais experiente para ajudar a segurar a barra. Fico triste quando falam “ah, a seleção só tem um jogador”. Eu bato na tecla e brigo com quem fala isso, porque não é assim. A nossa seleção é umas das melhores seleções que há. Acho que, se for bem trabalhada, bem articulada… Enfim, se forem escolhidas as peças corretas, acho que a gente pode conquistar muita coisa com esse grupo, que é muito bom. Mas hoje já estou bem acostumado [com a pressão]. Acho que a vida e a minha carreira me fizeram crescer. Me fizeram virar homem muito cedo. Então, é uma responsabilidade tipo gostosa de levar. Não me sinto pressionado. Muito pelo contrá- rio. Gosto de responsabilidades, de me sentir importante. Todos os jogadores gostam de se sentir importantes. E que eu possa servir de exemplo. Sejam muito mais novos ou mais velhos.  

Seu pai te ensinou a bater de esquerda, a chutar entre as pernas dos zagueiros, a evitar os confrontos físicos em campo. Ele sempre esteve com você desde os jogos de futsal, com 7 anos. O que você seria sem o Neymar pai? [Ele se emociona ao falar.] Não sei o que seria de mim sem o meu pai. É o ídolo que tenho na vida. É uma pessoa que tenho como espelho, amigo, não só como pai. E acho que ele fez trilhar o caminho da vida para mim. Ele passou por tudo que tinha que passar antes, para saber onde me colocaria. Muita coisa que sou, que tenho e que fiz é por causa dele.  

Você tem liberdade ou ele é o maior marcador que você tem na vida? Hoje em dia já tenho mais liberdade. Antigamente ele era o marcador. [Reclama sorrindo.] Tudo tinha que passar por ele. Mas ele já me criou, sabe que virei homem, então já posso tomar algumas decisões.  

Parece que às vezes você é mais marcado fora de campo do que dentro. O seu pessoal não dá trégua. Seu staff está sempre em cima de você. É verdade. O meu pessoal é meio complicado. Eles me deixam na linha. [Risos.] Preparador físico, fisioterapeuta, meu pai, amigos, pessoas que trabalham para mim. Todos estão sempre do lado. E se tiverem que puxar minha orelha, eles puxam.  

O seu visual é você que escolhe ou tem personal stylist? O visual sou eu. [Garante, com convicção.] 

Quantos patrocinadores você tem hoje? De cabeça? São muitos… [Ele pensa muito e pergunta para Gabriela Pozzi, responsável por quase toda a carreira do atleta e do craque-propaganda.] Mais de 15? Mais de 15.  

Quantos gols você tem na carreira até hoje? Tenho 274. [Até o gol contra o Athletic Bilbao, no Camp Nou, pela Copa do Rei. Ele foi o melhor em campo, marcou de canhota no fim da vitória por 3 a 1, logo depois de sofrer um pisão no pé direito.]  

Dos gols você não perde a conta, mesmo sendo muitos. Agora, patrocinador você não sabe… São muitos patrocinadores. [Dá uma risada constrangida.]  

Cada patrocinador faz suas exigências. Tem uma série de contrapartidas: desde a roupa que você veste até a bebida que toma. Tem de ficar toda hora preocupado com o que usa e consome? Confesso que sou um pouco desligado. Mas é por isso que as pessoas estão aí, o pessoal que trabalha para mim. Eles falam: “Ó, lembra disso aqui”. Me ajudam bastante.  

Você criou o negócio do “Tois”. Até a Dilma fez um “Tois” em sua homenagem. Imaginou que um dia a presidente da República faria um gesto da sua turma de amigos? Não imaginei. [Risos.] Esse sinal começou quando um amigo que estava com a perna quebrada foi assistir a um jogo meu pelo Santos contra a Ponte Preta, em Barueri. Ele estava de muleta, com os meus amigos. Quando fiz o gol, fiz o gesto com o punho direito apoiando o antebraço esquerdo. E eles, com a muleta, fizeram também. Tudo começou ali.  

Mas você sabe o poder que tem. As coisas que eu faço são normais e acabam virando. Faço mais por brincadeira e acabam virando sério, como danças e tudo mais. Não tem nada planejado.  

Melhor do que ser o Neymar é ser amigo do Neymar? [Gargalhada.] Olha, ser amigo também é bom. Não estou puxando o meu saco, porque sou muito gente boa.   

Os seus amigos têm uma vida agora que, evidentemente, nem em sonho poderiam imaginar. Acho que é mais difícil ainda ser meu amigo. Acho que tudo que envolve meu nome acaba sendo bem complicado. É difícil ser mãe do Neymar, pai, amigo, namorada, irmã. Porque às vezes você é julgado por uma coisa que você não é. Às vezes você faz algo porque pode e te julgam por isso. É bem mais difícil do que alguém que tem uma vida mais normal, menos exposta.  

É mais fácil ganhar o prêmio Puskas pelo gol mais bonito de 2011, driblando todo mundo, ou driblar o assédio? Driblar o assédio é bem difícil. [Reclama, ainda que aos risos.]  

Tem como preparar uma estratégia para superar essa marcação homem a homem, mulher a homem em cima de você? Não tem. Isso é normal. Faz parte da vida. Graças a Deus sou assediado. Quer dizer que as coisas estão dando certo.  

Qual foi o assédio mais difícil que encarou, a maior muvuca que você já provocou? Vou contar a primeira vez que caiu a ficha e pensei “estou famoso mesmo”. Foi em 2010. Eu treinei no Santos numa terça e fui a um shopping movimentado pra caramba. Esqueci que era feriado, e estava cheio. Aí um menino pediu para tirar uma foto. Aí tirou um, tirou outro, foram tirando foto. Entrei na loja para comprar um iPod. Aí a mulher falou: “Tem que fechar a loja, porque todo mundo está querendo entrar.” Tive que sair pela saí- da dos funcionários. E eu falei “caramba…” Foi a última vez que saí sozinho.  

Como é o Neymar atacando fora de campo? Ele é romântico, vai pra cima ou é cercado pelas mulheres com a mesma ferocidade com que é marcado pelos rivais? Depende. Sou de lua… [Sorri, meio tímido.] Tem dia que estou romântico, tem dia que não. Mas quando estou apaixonado, sou bonzinho.  

E está apaixonado? Não… Tsc… [Ele pensa bem, procurando uma resposta.] Estou com o coração todo carente… Mas estou precisando me apaixonar. Estou disponível. Estou online. [Mais risos tímidos.]  

Você tem um filho [Davi Lucca nasceu em 24 de agosto de 2011]. Como é que foi desde que soube que seria pai? Como tem sido? O choque foi grande. Para mim, minha família. Fiquei sabendo dois dias antes do primeiro jogo da final contra o Corinthians [pelo Campeonato Paulista de 2011]. Eu até tinha falado que não queria jogar a final. Não tinha cabeça. Mas acho que ganhei na loteria. Por tudo. Foi uma bênção de Deus. Hoje, minha maior felicidade é o meu filho. Agradeço também à mãe dele [a empresária Carol Dantas]. É uma pessoa fantástica que me ajuda, faz de tudo para que o filho dela seja feliz. Só tenho que agradecer.  

Quanto tempo ele fica aqui com você? Agora ele está direto, está morando em Barcelona, com a mãe [desde agosto de 2015]. Está muito mais perto.  

Você quer dar mais irmãos para ele? Ainda não. Não tenho nem namorada. Não estou nem apaixonado. [Risos.] 

Pensa em casar, ter mais filhos? Quero ter minha esposa, casar. Aí vou ter mais uns dois, no mínimo. [Risos.]  

Menino ou menina? Eu quero ter uma menina. Já tenho um menino. Agora falta uma menina.  

E vai ter um Neymar Neto? Neymar Neto, não. [Mais risos.]  

Você tem medo de “maria-chuteira”? Teme que as mulheres te queiram só pelo pacote, e não pela pessoa que você é? Medo, não. Acho que sou bem esperto para isso. [Sorri confiante.] Acho que consigo controlar tudo isso. Quando vejo que é interesseira, eu meto o pé.  

Você está no Tinder? Não.  

Manda nudes? Não. Ainda não. [Gargalhada alta.]  

Recebe nudes? Sim! [Se diverte.] Mas não mando, não. [Enfatiza, aos risos.] Mas, de repente… De repente, se precisar aí… [Risos.] Não, estou brincando. [Tenta falar sério.]  

Quando foi sua primeira vez? Foi bom para você? [Risos.] Faz tempo… [Risos, querendo desconversar]. Sim, foi bom!  

Em alguma rede social já aconteceu de alguém não acreditar que estava realmente falando com você? Já aconteceu de eu mandar uma mensagem para uma menina e ela falar “ah, não é você, não acredito”. Então tá bom… Aí eu parei de falar com ela. Depois de uma semana, ela: “Não acredito, era você!” [Risos.]  

Já levou fora? Vixe… Um monte!  

Já que você está encalhado e caretão [risos], o que te interessa mais em uma mulher? [Pensativo.] Primeiro, que ela goste de jogo. Pôquer, essas coisas.  

Mais de pôquer que de futebol… Mais de pôquer que de futebol, porque aí ela me entende. Tô brincando… [Longa risada.] Que seja uma mulher feliz, interessante, gente boa e do bem. Essas coisas são favoráveis para começar uns flertes.  

Como foi o fim do relacionamento com a Bruna Marquezine, no começo de 2014? Nenhuma separação é legal. Mas chegamos a essa conclusão e, naquela época, foi a melhor coisa para os dois. Ainda somos amigos, e de vez em quando nos falamos.  

Você e o pessoal da agência de publicidade Loducca criaram, em 2014, a campanha “Somos Todos Macacos”, contra o racismo. Em algumas partidas, em alguns lugares, ainda chamam você de macaco. Como tem driblado o preconceito? Driblar o racismo… Acho que o apelido só pega quando você liga para o apelido. Sou bem tranquilo quanto a isso. Brinco com os meus amigos e eles brincam comigo. Não ligo. A pessoa que faz essas coisas, que ainda tem atitudes racistas, é uma pessoa que não tem nada na cabeça. Se ela pensa assim é porque ela realmente não cresceu, não virou ser humano. Acho que todos nós somos iguais, somos filhos de Deus, e cada um vive sua vida da maneira que quiser. Deus deu a vida para cada um cuidar da sua. Então, que cuide da sua, seja feliz e deixe de lado essa questão de racismo.  

Quase todo o time do Brasil está na China ou está indo para lá. Você jogaria na China? É longe. [Risos.] Não sei o dia de amanhã… É um futuro que está em aberto. Ninguém sabe o que pode acontecer amanhã. Hoje, não. Hoje estou muito feliz no Barcelona, mas quem sabe?  

Quando você pensa em voltar ao Brasil? Daqui a uns anos. No mínimo, uns… sete aninhos. [Faz a conta descontraído.]  

O Instituto Neymar Jr., em Praia Grande, é um sucesso, e tem gente que acha que é para um monte de coisa, até para lavar dinheiro. Eu não busquei fazer sucesso com o meu instituto. O que consegui ali é ajudar as crianças e, principalmente, as famílias do bairro onde eu cresci. Então, quando você pensa assim, não pensa em dinheiro e sucesso, acho que as coisas começam a fluir. Infelizmente, o nosso país está passando por um momento muito difícil. Espero que possa arrumar tudo e melhorar o mais rápido possível.  

Votou em quem para presidente em 2014? Pra presidente? Voto é secreto. [Desconversa, aos risos.] 

Você conhece o presidente da CBF hoje? Não…. Conheço ou não conheço? [Pensa.] Não lembro. 

Coronel Antonio Nunes. Ele tomou posse em janeiro de 2016. Não. Devo conhecer de vista.  

Conhece o presidente da Fifa hoje, antes da eleição do sucessor do Sepp Blatter? Não.  

Conhece o presidente da Conmebol hoje, depois de o último ter sido preso? Não.  

É fácil jogar em um futebol assim, com dirigentes presos, afastados ou desconhecidos? É difícil jogar futebol. Por tudo que envolve, por tudo o que acontece. É um pouco complicado.  

O capitão do Brasil em cada uma das cinco conquistas mundiais não era o craque do time [Bellini, Mauro, Carlos Alberto Torres, Dunga e Cafu]. Hoje você é o craque do time e também o capitão. Nunca aconteceu de o craque ser o capitão do Brasil campeão do mundo. Você vai quebrar essa escrita? Vou, se Deus quiser. Vou fazer de tudo para que isso possa acontecer. [Risos.]  

Cristiano Ronaldo nunca votou no Messi no Fifa Gala, como capitão da seleção de Portugal. O Messi, capitão da Argentina, também nunca votou no Cristiano Ronaldo para melhor do mundo na mesma premiação. Você agora é capitão do Brasil e votou no Messi, em 2015… Por que você vota nos caras, se eles não votam nos rivais? [Mais sorrisos.] Eu voto em quem eu acho que merece, quem está ali. Já votei no Cristiano Ronaldo no outro ano [em 2014, quando o atacante do Real Madrid ganhou pela terceira vez o prêmio de melhor jogador do mundo, escolhido por treinadores, capitães das seleções nacionais e jornalistas]. Não vejo problema nenhum. Acho que respeito o voto de cada um. E todos devem respeitar os meus votos. Meu voto em 2015 foi para o Messi, porque, para mim, ele fez uma grande temporada, e merecia levar a Bola de Ouro.  

Já namorou capa da PLAYBOY? Ainda não. Vai que, né? [Gargalha, surpreso.]  

Tem alguém que você falaria, assim, “estamos aqui abertos para qualquer negócio”? [Risos.] Na lata, Neymar: qual a mulher mais bonita para você? Tem opções aí? [Risos nervosos, olhando para a assessora.] Me ajuda!  

Se eu te ajudar, não volto para casa. [Risos.][Pensativo.] Paolla Oliveira e Aline Riscado. [Minutos depois desta entrevista, enquanto realizava tratamento no pé lesionado por um pisão no jogo da véspera, Neymar acrescentou, por WhatsApp, a terceira opção: Thaila Ayala.]

Publicada originalmente em abril de 2016.